DISCURSO DE ABERTURA DO PRESIDENTE DO CBC :
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FALANDO DE SONHOS E DE OUTRAS COISAS CONCRETAS
Rosemberg Cariry – presidente do CBC
Senhoras e senhores,
Antes de tudo, agradeço do fundo do meu coração a presença de cada um de
vocês, pois nela vislumbro um ato simbólico que aponta o cinema e o
audiovisual como potências em movimento, como forças vivas e
transformadoras, que poderão colocar o Brasil, nas próximas décadas, no
papel de agente positivo e transformador no imaginário do mundo. Muitos de
nós aqui presentes encarnamos percursos já longos de ricas e múltiplas
experiências de vida, trabalho e criação. Mas, a maioria dos que aqui estão
são jovens, flexíveis e viçosos como os caniços que se curvam ao vento e se
debruçam nas margens dos rios para beber da fonte renovadora da vida.
Jovens que sabem que estes mesmos rios, pacientemente, cortam montanhas e
desfazem a solidez das rochas, em busca do mar, porque todo rio nasce
destinado ao mar.
As palavras que aqui pronuncio não pretendem ser palavras de todo o povo do
cinema. São palavras neste instante minhas que almejo oferecer ao coração e
à boca do povo do cinema que somos e representamos, para com ele quem sabe
reinventar o sonho. Acredito que tudo nos une neste congresso, porque me
parece ser impossível separar os seres humanos quando eles sonham juntos.
A partir desta noite, e durante mais três dias, teremos relatórios precisos,
estudos verticais, análises econômicas, teses bem fundamentadas nas diversas
ciências, números absolutos e relativos, análises estatísticas traduzidas em
gráficos, relatórios e relações de investimentos e lucros. Aqui, no entanto,
não tratarei ainda destas questões. Prefiro falar das coisas, permanentes e
visíveis, buscando antes situá-las em outro plano de entendimento... Vou
tratar de poesia, de esperanças e de sonhos que, como pedras em alicerces,
não raro são o fundamento do mundo. Napoleão, na conquista do Egito, em
1798, teria dito: "Soldados! Do alto destas pirâmides, quarenta séculos de
história nos contemplam!". Não sei se ele disse isto, mas poderia ter dito:
"Soldados! Do alto destas pirâmides, em sua forma visível, desde tempos
imemoriais, um arquétipo vos contempla". Afinal, antes dos faraós, dos
engenheiros, dos construtores, dos matemáticos e dos cálculos abstratos,
alguém tornou concreto o arquétipo da pirâmide, da representação do sagrado,
que habitava a alma do homem.
Bem antes dos engenheiros e dos blocos de pedras, a pirâmide
foi sonhada por um profeta ou por um poeta que traduziu sua forma na
musicalidade concreta de um poema. Sonhemos, pois, com a mesma acuidade com
que sonharam os antigos que nos antecederam em todas as modernidades e
pós-modernidades tardias.
Os mestres budistas, que de bem no mundo possuíam uma túnica, um cajado e um
prato, costumavam dizer: "Uma coisa é o dedo que aponta a lua e outra coisa
é a lua". Sábios eram estes homens. É preciso não confundir o dedo com a
lua, nem se iludir com a abstração da lua. Muitas vezes, confundimos o nosso
cinema que aponta o mundo com o mundo, da mesma forma que os pequenos
macacos muitas vezes se afogam tentando apanhar a miragem da lua refletida
na água de um lago. Confundir cinema com mercado é confundir o dedo com a
lua. O mercado pode ser importante, muito importante, mas o mercado não é o
cinema. Fazer obras tendo como parâmetro exclusivo apenas o possível gosto
de um mercado imaginado, em sua abstração conservadora, é se afogar tentando
apanhar a miragem da lua refletida na água. O mercado não pode ser um fim em
si mesmo, antes deve ser um meio para a realização do homem, da mesma forma
que o dedo é um meio que aponta a beleza da lua.
Precisamos talvez retomar o sentido mais profundo das palavras pichadas
pelos jovens, nos muros de todo o mundo, em maio de 1968: "Sejamos
realistas, queiramos o impossível". Há os que acreditam que o muro de
Berlim, a queda do império Soviético ou a atual agonia dos impérios
capitalistas foram coisas ditadas pelos mercados, pelas guerras e pelas
economias globalizadas. Mas pode ser que as muralhas dos impérios tenham
ruído e ainda estejam ruindo, por estarem muito distantes do espírito
daquela frase pichada com tanta emoção nos muros de Paris, de Berlim, de
Praga, do México, do Rio, de Juazeiro do Norte e de Teresina, uma frase que
até hoje ressoa na memória de muitos de nós como um sonho abandonado. Por
isso mesmo é que precisamos novamente da magia-esperança, da poesia-heresia,
do cinema-rebeldia e da alquimia-sonho das palavras e do cinema.
Desculpem-me, senhoras e senhores, mas me parece que o povo novo do cinema é
exigente, quer muito mais do que o mercado. O povo novo do cinema quer o
cinema como pedra filosofal, o ouro como energia espiritual concentrada, da
qual falavam os alquimistas em seus sonhos experimentais. Para quem ainda
não sabe, me arrisco a avisar: os alquimistas estão chegando, são artífices
de todas as tecnologias e convergências digitais, têm entre quinze e trinta
anos de idade: são brancos da classe média, são índios da periferia, são
negros quilombolas nas favelas das metrópoles, são mulatos rebelados nos
shoppings centers, são loiros dos sertões gerais, são caboclos das
florestas, são sararás dos terreiros de macumba do planalto central... Um
Brasil que se reinventa em cores e sonhos, em novas belezas e
impossibilidades tornadas possíveis. O que aqui se reúne é uma nação diversa
e unida, nestes tempos de pós-modernidades, em que o centro está em todos os
lugares onde estão os homens e as mulheres em seus processos criativos.
Senhoras e senhores, temos que reconhecer: só o sonho é real. Sejamos
realistas, vamos restituir o sonho ao cinema brasileiro. Para Glauber Rocha,
"O sonho é o único direito que não se pode proibir. (...) Uma obra de arte
revolucionária deveria não só atuar de modo imediatamente político como
também promover a especulação filosófica, criando uma estética do eterno
movimento humano rumo à sua integração cósmica". (...) Para aquele grande
pensador baiano, de Vitória da Conquista, a "Arte revolucionária deve ser
uma mágica capaz de enfeitiçar o homem a tal ponto que ele não mais suporte
viver nesta realidade absurda". Está escrito nas lendas mais antigas: o
mundo nasceu de um sonho de Deus e de um pesadelo do diabo.
Neste 8º Congresso Brasileiro de Cinema e Audiovisual, na numinosa cidade de
Porto Alegre dos Povos das Sete Missões, peço a todos que façam comigo uma
aliança para anunciar a retomada do sonho e, ao fazer isso, não nego que
penso neste país, daqui a quinze ou trinta anos, como um dos mais
importantes produtores de cinema e audiovisual do mundo, insisto em dizer.
Esta destinação está calcada nas raízes da nossa própria formação histórica
enquanto povo novo e culturalmente complexo. Percebendo a destituição das
culturas originais, Paulo Emílio Sales Gomes, no ensaio "Cinema: Trajetória
no subdesenvolvimento", afirma que, no Brasil, "nada nos é estrangeiro, pois
tudo o é". Talvez aquele inspirado intelectual paulista se referisse à
herança de humanidade que reinventamos a cada dia, como quem repara o
necessário pão do espírito. Os cearenses chamaram este processo de Padaria
Espiritual. Os modernistas paulistas de antropofagia, e o mineiro Darcy
Ribeiro comparou o Brasil a uma Roma Tardia.
O certo é que sendo Brasil somos o mundo. Tudo que o Brasil
produz em termos de cultura é, ao mesmo tempo, brasileiro e universal, visto
que nossa cultura é um encontro das principais vertentes culturais do mundo
que se reinventam aqui sob um novo signo de grandeza e generosidade.
Estamos aqui reunidos em nome desta grandeza e desta generosidade. Estamos
aqui reunidos para revirar os sambaquis imaginários da nação brasileira,
para afirmar a diversidade e a construção de caminhos comuns e consensos,
dentro da nossa pluralidade.
Caso alguém me pergunte o que é o Congresso Brasileiro de Cinema, eu direi:
é um ritual de pajelança que acontece de dois em dois anos, para a gente se
encontrar, guerrear e sonhar. Se é pelo sonho que estamos aqui reunidos,
celebremos então a realidade de uma nação sonhada por Darcy Ribeiro, Glauber
Rocha, Guimarães Rosa, Antonio Conselheiro, Pagu, Jorge Amado, Lina Bo
Bardi, Mário Quintana, Portinari, Lula, Olga Benário, Patativa do Assaré,
Chico Xavier, Villa Lobos, Bispo do Rosário, Gilberto Gil, Ariano Suassuna,
Irmã Dulce, Chico Mendes, Juca de Oliveira... Uma nação que se faz da
concretude de mil povos, de mil culturas, de mil etnias, de mil profecias e
de mil utopias. Lembro aqui, sem medo de falar em vão, que os sonhos são
mais poderosos do que as utopias, já que os sonhos são feitos com a matéria
da vida. As utopias são geradas com a negação da vida, no aqui e agora, e
trazem nos seus frutos as sementes das grandes tragédias e desventuras. Não
sejamos utópicos.
Sejamos sonhadores e com a matéria dos sonhos vamos construir a vida, vamos
transformar o que nos couber neste mundo.
Rodolfo Nanni, Galileu Garcia, aqui presentes, foram homens que sonharam e
realizaram os primeiros congressos brasileiros de cinema, ainda na década de
50. Maurice Capovilla e Geraldo Sarno, guerreiros sobreviventes de todas as
batalhas, poetas-morubixabas que ainda hoje trabalham, dos sertões do Ceará
à floresta amazônica, ensinando os jovens a amar cinema para que depois
possam fazer cinema. Sérgio Mamberti é o ator que transformou em cinema e
espetáculos todos os nossos sonhos e devaneios. A estes homens,
representando todos os cineastas e atores brasileiros, as nossas mais
sinceras e profundas homenagens.
Nada nasce ou acontece sem a graça de uma mulher. Aqui também temos a nossa
graça e agradecemos a Dona Edina Fujii, aqui representando as mulheres do
cinema, pelo seu desmedido esforço na realização deste evento. Cito ainda
Myrna e Carlos Brandão, exemplos profundos de dedicação à pesquisa,
preservação e restauração dos tesouros cinematográficos brasileiros. Ave!
Por fim, gostaria de lembrar que temos a honra, neste
congresso-congraçamento, de abstrações e concretudes, da presença de Nelson
Pereira dos Santos, aqui representando o cinema e o povo brasileiro. Nelson
Pereira não pôde vir, não está aqui, e por isto mesmo está mais presente do
que se aqui estivesse. Meu caro Nelson Pereira dos Santos, nós agradecemos
com grande carinho a sua presença em nossas almas e em nossos corações.
Sendo você um cineasta do povo brasileiro, neste mesmo povo, você está
contido. Ao entregarmos, simbolicamente, a condução do 8º Congresso
Brasileiro de Cinema e Audiovisual ao povo novo do cinema, em verdade, é a
você que o entregamos.
Muito obrigado!
Porto Alegre, 12 de setembro de 2010
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PROGRAMAÇÃO 8º CBC
12 de Setembro – DOMINGO
12h às 18h30 – Credenciamento
19h – Abertura
20h30 – Homenagem a Nelson Pereira do Santos – Presidente de Honra do 8 CBC
13 de Setembro – SEGUNDA-FEIRA
Das 8h30 às 12h30 – Grupos de Trabalho
GT 1: INFRA-ESTRUTURA e PRODUÇÃO
GT 2: DISTRIBUIÇÃO / EXIBIÇÃO e DIFUSÃO CULTURAL
GT 3: FORMAÇÃO / PESQUISA / PRESERVAÇÃO e CRÍTICA
GT 4: TVs / NOVAS MÍDIAS e CONVERGÊNCIAS DIGITAIS
GT 5: DIREITO AUTORAL / DIREITOS DO PÚBLICO e GESTÃO COLETIVA
GT 6: POLÍTICAS PÚBLICAS / ARRANJOS PRODUTIVOS e AÇÕES ESTRATÉGICAS
Almoço
Das 14h30 às 16h30 - Grupos de Trabalho
Das 17h00 às 19h00 – Painel de Abertura: O AUDIOVISUAL NO BRASIL HOJE:
FONTES e MODELOS DE FINANCIAMENTO
MODERADOR: CÍCERO ARÁGON
20h30 – Jantar
14 de Setembro – TERÇA-FEIRA
Das 8h30 às 10h30 – Painel 01: O AUDIOVISUAL NO BRASIL HOJE: INFRAESTRUTURA
e PRODUÇÃO
MODERADOR: GERALDO VELOSO
Das 11h00 às 13h00 – Painel 02: O AUDIOVISUAL NO BRASIL HOJE: DISTRIBUIÇÃO,
EXIBIÇÃO e DIFUSÃO CULTURAL
MODERADOR: BETO RODRIGUES
Almoço
Das 14h30 às 16h30 – Painel 03: O AUDIOVISUAL NO BRASIL HOJE: FORMAÇÃO,
PESQUISA, PRESERVAÇÃO e CRÍTICA
MODERADOR: CARLOS BRANDÃO
Das 17h00 às 19h00 – Painel 04: O AUDIOVISUAL NO BRASIL HOJE: TVs, NOVAS
MÍDIAS e CONVERGÊNGIAS DIGITAIS
MODERADOR: CHICO FAGANELLO
20h – Jantar
21h30 – Programação Cultural
15 de Setembro – QUARTA-FEIRA
Das 8h30 às 10h30 – Painel 05: O AUDIOVISUAL NO BRASIL HOJE: DIREITO
AUTORAL, DIREITOS DO PÚBLICO e GESTÃO COLETIVA
MODERADOR: JOÃO BAPTISTA PIMENTEL NETO
Das 11h00 às 13h00 – Painel 06: O AUDIOVISUAL NO BRASIL HOJE: POLÍTICAS
PÚBLICAS, ARRANJOS PRODUTIVOS e AÇÕES ESTRATÉGICAS
MODERADOR: ROSEMBERG CARIRI
Almoço
Das 14h30 às 18h30 – PAINEL DE ENCERRAMENTO: Apresentação e aprovação das
propostas do GTS E DAS RESOLUÇÕES FINAIS DO 8º CONGRESSO BRASILEIRO DE
CINEMA E AUDIOVISUAL
19h00 – Solenidade de encerramento do 8º CONGRESSO BRASILEIRO DE CINEMA E
AUDIOVISUAL
21h00 – Jantar de Confraternização
Serviço 8º. Congresso Brasileiro de Cinema e Audiovisual
De 12 a 15 de setembro de 2010.
Hotel Plaza São Rafael, Av. Alberto Bins, 514
Porto Alegre – RS www.cbcinema.org.br / culturadigital.br/cbcinema