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BOLETIM NÚMERO 05 -  MARÇO 1999

NOTÍCIAS

A atividade profissional desenvolvida por roteiristas ainda não desfruta de clareza quanto ao seu contorno, por ser esta uma atuação recente, de uma área de trabalho também recente e que tem muito de talento e esforço pessoal, mas pouco de ação conjunta pela sua delimitação e normatização. Esta publicação tem buscado apresentar elementos que contribuam para clarificar a visão sobre a atividade do roteirista, de maneira a favorecer a configuração de uma identidade para esse meio profissional, tão importante para o processo de produção de uma obra audiovisual. A contribuição vem do próprio meio, na seção Palavra de Roteirista e nas notícias fornecidas pelos profissionais que colaboradoram a cada edição.

CONCURSO DE ROTEIRO

Promoção da Motion Pictures Association - MPA com co-patrocínio da Writer’s Guild of America - WGA, o “Concurso de Roteiros 1999” selecionará 3 roteiros originais de obra cinematográfica longa metragem e premiará o 1o lugar com um curso de roteiro em Los Angeles. A oportunidade oferecida pelo concurso é mais uma iniciativa de apoio cultural que a entidade proporciona a roteiristas brasileiros. O período de inscrições, sujeito a confirmação, está previsto para o mês de Abril e maiores informações serão divulgadas pela imprensa.

SITE CINEMABRASIL

O cinema nacional conta com um espaço na Internet, desde 1995, para acesso a obras e para diversas outras atividades. Nascido do projeto cultural “Cinema Brasil na Internet”, o site é uma iniciativa privada que presta um serviço de utilidade pública, já que oferece trânsito gratuito pelas suas páginas. O usuário tem à sua disposição informações sobre cerca de 520 filmes brasileiros (com meta de chegar a 3.200), constando de ficha técnica, sinopse, imagens e sons. As opções são de obter informações no Banco de Dados de Filmes, de assistir a trailers e entrevistas na TV-NET, ler matérias jornalísticas sobre cinema no Banco de Artigos, ler roteiros de filmes já realizados na Roteiroteca, participar de listas de debates sobre cinema e/ou roteiro. Como o site é acessado por usuários de todo o mundo, ele tem versões em Inglês e Francês e planos de tradução para o Espanhol. Além das informações serem de alta relevância para esse meio profissional, os intercâmbios mantidos nas listas de debates têm contribuido para muitas reflexões sobre cinema. O endereço é www.cinemabrasil.org.br

O AUDIOVISUAL NA DIFUSÃO DO CONHECIMENTO

Existe no país um campo de trabalho para roteiristas (e, por extensão, para realizadores de modo geral) de enorme potencial, artístico e comercial, mas ainda pouco explorado pelos profissionais brasileiros. Trata-se da produção audiovisual de filmes não-ficcionais – vídeos educativos, científicos e filmes chamados ‘documentários’.

A produção brasileira deste setor ainda pode ser considerada incipiente, apesar de já se notarem esforços para a ocupação deste nicho que, com os canais da TV a cabo, se tornou fenomenal. A demanda, que hoje já cinco vezes maior que a produção, tende a crescer com os projetos de educação a distância como o Tv-escola, ou via Internet, assim que a velocidade de transmissão seja resolvida.

A Casa da Ciência, órgão de divulgação científica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, atenta ao fato de que, no próximo século, o audiovisual será um dos principais veículos de educação não formal, programou para este ano uma série de atividades através das quais pretende incentivar o aprimoramento desses profissionais ligados ou interessados em transformar o conhecimento em imagem.

Mensalmente, a Casa da Ciência sediará os ‘Encontros Documentais’, em que realizadores debaterão as técnicas e a linguagem do documentário, no Brasil e no mundo. Organiza, para junho, o seminário ‘Audiovisual na Educação’ e a ‘Semana do Vídeo Científico’. Em agosto, é a vez do ‘Ver Ciência’ – mostra internacional de TV e Vídeo. Em setembro, a ‘I Mostra de Documentários Brasileiro’. Quanto a formação de novos profissionais, serão oferecidas as oficinas ‘Roteiro de Vídeos Educativos’ e ‘Animação para Crianças’ e os cursos ‘A História da Linguagem Cinematográfica’ e de ‘Produção Audiovisual’.

Os detalhes da programação deste ano ainda estão sendo fechados, mas já apontam o empenho da instituição. Outros projetos estão sendo estudados, novas parcerias vêm sendo iniciadas, idéias vão tomando forma. Para meados do ano 2.000, teremos o Cine Ciência – Um espaço multimídia com sala reversível para auditório (capacidade: 160 lugares) equipado com alta tecnologia que possibilite a projeção de filmes, vídeos interativos e a realização de teleconferências e palestras.

A Casa da Ciência espera consolidar, assim, sua aposta num futuro onde produtos audiovisuais de qualidade exercerão papel fundamental ao diminuir a distância que existe entre a educação formal e o entretenimento.

seção PALAVRA DE ROTEIRISTA

Não vejo qualquer relação entre a criação literária e a dramaturgia, seja teatral, ou a chamada audio-visual. Os pressupostos de cada uma dessas formas de expressão são singulares e específicos. A minha motivação para escrever romance é da infância. A literatura estaria no meu trajeto natural - eu me preparara para ser um escritor. O desvio foi o teatro, que me seduziu e me levou a estudar fora, e me arrastou para escrever e dirigir peças, ser professor e fundador de escolas, etc. Do teatro fui para a televisão e para o cinema. Há treze anos sou escritor independente, e vivo exclusivamente do que escrevo. Meu romance foi muito bem recebido, mas não é um best-seller. Nem foi escrito para isso - tem oitocentas páginas, arrola vinte e cinco anos de história do Brasil, e me consumiu dois anos para ser escrito. Está vendendo surpreendemente bem e terá segunda edição em abril - embora eu não reconheça o mercado como instância definidora dos padrões de qualidade artística. O romance abriu um novo espaço de atuação com algumas ofertas de editoras para o próximo, que devo escrever este ano.

Alcione Araújo

Autorias: roteiro do filme longa-metragem, “Policarpo Quaresma - o herói do Brasil”; peça teatral “Deixa que eu te ame” (concluída em Janeiro 99); romance “Nem todo oceano”; além de diversas peças, roteiros de cinema e televisão e ensaios.



Existem semelhanças e diferenças entre a criação da dramaturgia teatral e o audiovisual, seja TV ou Cinema, mas é fundamental ressaltar que ambas possuem uma relação estreita com a literatura já que nascem do peso e importância da palavra. Em termos da linguagem, também podemos dizer que os discursos entre os meios são diferentes. De todas as formas, mono ou polimórficos, contínuos ou interrompidos, todos são frutos dos mecanismos de ficção que surgiram com a literatura, oral ou escrita. Por isso creio que o roteirista trabalha tanto para a imagem como para a palavra, sendo portanto um monstro de duas cabeças. Com um olho na essência do pensamento, a palavra, e outro na estética da visão, a imagem. Daí porque além de escrever roteiros e livros sobre roteiro (Da Criação ao Roteiro - Ed. Rocco - 4a. edição), me aventurei a escrever meu primeiro romance “A Guerra das Imaginações” (Ed. Rocco/98), que foi traduzido e já publicado na Espanha, Argentina, Portugal, México e vendido para a Itália.

Doc Comparato

Autorias: roteiro de minisséries e seriados de televisão como “Malu Mulher”, “Plantão de Polícia” e “Mulher” (este ainda em exibição), entre outros, inclusive em produções européias. Roteiro de sete longa-metragens, de peças de teatro, contos, ensaios, livros didáticos e do recém-lançado romance “A Guerra das Imaginações”.



O roteirista é um tipo bem especial de escritor. Ele deve manter sob controle o transbordamento afetivo de sua própria subjetividade, que é o dever do poeta, e não pode viajar sem fronteiras pelos universos de sua imaginação, como o romancista. Isso acontece porque o roteirista escreve para um meio de expressão que não é o da palavra escrita, mas o da imagem concreta. Seus vôos, portanto, devem ser subordinados ao formato do roteiro, ou seja, às necessidades da obra - o filme - que vai ser feita a partir dele. Por isso, a principal característica do roteirista como escritor é a necessidade de disciplina. Meu amigo e grande romancista João Ubaldo Ribeiro chama a isso de “a camisa-de-força do roteiro”. Consequentemente, o roteiro só será atraente aos escritores que se sentirem confortáveis com suas regras e desfrutem o prazer lúdico de obedecê-las. O roteirista também é um artista mas, antes de tudo, é um trabalhador, um profissional.

Luiz Carlos Maciel

Filmes “Society em babydoll” - autoria de roteiro e direção e “O Homem que comprou o mundo” - autoria do roteiro, tendo direção de Eduardo Coutinho. Mini-série “O Amor do outro lado da terra” - autoria do roteiro, tendo produção de Lucélia Santos e Tv chinesa (a ser lançada).



Há uma relação muito próxima entre a literatura e a dramaturgia audiovisual – assim como de qualquer trabalho artístico, desde que falem de emoção. Emoção e beleza são sinônimos de arte. Arte é o tratamento intencional da emoção, resultando em beleza, com seus vários graus de interpretação. A semelhança entre elas é muito sutil, mas com alguma investigação depreende-se claramente que alguém – o autor – dirige a emoção daquele que a observa, tornando-o um dos personagens integrantes àqueles trabalhos, onisciente e ubíquo. Faltando a emoção, falhará também a comunicação autor-leitor/espectador, meta incontestável de todos. Como autor sinto-me à vontade para tentar uma e outra formas para arejamento das idéias e da autocrítica. Escrevo roteiros como meta principal e ensaios para ampliação do espectro.

Mauro Simões

Autorias: roteiro do vídeo “Fundição Progresso - ontem e hoje”; roteiros de diversos vídeos empresariais; sinopse premiada por concurso do Casarão de Laranjeiras; além de contos literários e de um livro com ensaio sobre o amor via Internet, com lançamento previsto para Abril.


O conteúdo deste boletim foi elaborado por Sílvia Costa da

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