O processo de criação audiovisual começa na etapa de concepção da narrativa, tanto em se tratando de obra dramática, quanto de obras documentais, institucionais, científicas ou educacionais. É no primeiro elo da cadeia de profissionais envolvidos nesse processo que se situa o autor da idéia e o roteirista. Assim, a geração da história e a sua formatação para o meio audiovisual constituem a ação fundadora da rede de atividades que se segue até a obra final. O profissional dessa primeira fase burila uma idéia a ser levada a público por um conjunto de pessoas.
É a etapa de abstração, onde se formula o pensamento, função do roteirista, que transforma uma idéia em algo concreto a ser filmado; tarefa de fundamental responsabilidade para com os demais participantes do projeto. Nesse momento há uma experiência de vida que será explicitada na obra e uma vivência mais sensível (ou menos) do fazer humano e das questões morais, tudo tomando corpo para chegar a outros sujeitos.
Há uma curiosidade recorrente sobre essa atividade do meio cinematográfico, que indaga sobre como uma pessoa se torna roteirista. Em artigo da revista Humboldt uma argumentista e roteirista alemã, Dorothée Schon, opina que a pessoa pode se alistar numa embarcação do Greenpeace, fazer estágio junto a um psiquiatra, tornar-se assessor de um político profissional ou ir para a prisão onde fervilham histórias de todo o tipo.
Um rápido olhar sobre essa declaração aponta para a necessidade de se ter, à mão, alguma fonte de histórias. Um olhar mais pausado revela que as fontes mencionadas constituem espaços onde "fervilham" questões humanas exteriores ao cotidiano, como aquelas decorrentes da participação social em movimentos pela consciência do meio ambiente, da dilaceração humana explicitada em consultórios psicanalíticos, das opções éticas ou não da atividade política e das mentes conturbadas que enfrentam o regime carcerário.
A roteirista alemã conclui que talvez não seja esse o caminho para alguém tornar-se um profissional de roteiro cinematográfico, afirmando que uma possibilidade de caminho pode estar em "dispor de um amigo, por cuja visão possamos ver o mundo de maneira inteiramente distinta". Ela destaca, ainda, que o trabalho requer a concentração no âmago da história e no que ela tem de especial. De acordo com Dorothée Schon, é o "drama da vida humana" que a impele a escrever.
Uma "visão" implica em pensamento (seja do roteirista ou de um 'amigo' como sugere a autora alemã), que impregna a obra durante a sua geração; pensamento depois transformado pela visão do diretor em sua manifestação cinematográfica.
Como aqui se trata de dramaturgia audiovisual, cabe a contribuição de Eric Bentley, em seu O Dramaturgo como Pensador, que discorre sobre a arte dramática, tanto no palco como na tela, ter o papel de "testemunhar algum tipo de experiência humana profunda e verdadeira. Em todos os dois vai-se necessitar dos serviços de um artista - o dramaturgo - para planificar de antemão um trabalho inteiro como uma unidade e de um intérprete ou diretor que faça com que essa unidade seja fielmente reproduzida. O filme é a arte dramática do século XX". Contudo, esta última afirmação de Bentley não proclama o fim do teatro, apenas alerta que surgiu uma forma que lhe tem semelhanças, mas que se utiliza de outro meio de produção técnica.
Sobre a obra resultante do trabalho de dramaturgia, Bentley declara que a "arte é uma parte da vida vista através de um temperamento" e que o "dramaturgo tem sido sempre um pensador, um professor, um propagandista".
Outra contribuição nesse sentido vem de David Howard, em Teoria e Prática do Roteiro, através de sua constatação de que "a especificidade do universo contido numa história vem de duas fontes: da natureza do personagem central e da natureza de quem conta a história". Relata, ainda, que o universo imaginado pelo roteirista é parte de seu estilo e que o tema é o ponto de vista decorrente de sua posição em relação ao material abordado, tendo o roteirista sempre uma atitude relativa às pessoas e situações criadas.
Como o roteirista deixa marcas na obra, esse seu produto "pensa" o mundo de acordo com o pensamento do autor. Conforme ensina Howard, um conteúdo mais enfatizado ou não, a presença de medos, aspirações, realidades, fantasias e tudo o que compõe a história "vem de dentro de quem escreve o enredo". Portanto, estarão presentes não só as escolhas conscientes, mas também os preconceitos involuntários de quem escreve.
Um reforço a essas declarações vem de Jean-Claude Carrière em artigo intitulado O Ritmo Secreto do Cinema (Les Scénaristes au Travail, 1981, Paris): "A posição do roteiro é uma posição chave na fabricação de um filme, pois é a partir do roteiro que se decide o filme". Ele ainda acrescenta que "um bom roteirista é alguém que conhece a fundo a técnica cinematográfica, pois é preciso escrever coisas viáveis, dentro de um orçamento e dentro das possibilidades do cinema. É preciso escrever coisas filmáveis, do contrário o roteiro não passa do sonho impossível de um filme. (..)"
Daí, a relevância do roteirista, esse alguém que concebe uma idéia, formata uma narrativa para o meio audiovisual, precede outros profissionais da equipe de trabalho, oferece sua experiência de vida para a história, lança mão de sua vivência para tratar das questões humanas, busca fontes para suas elaborações, atenta à essência do sujeito, seleciona materiais incomuns mas afetos à aventura humana e ... encarna em si cada personagem participante da história, promovendo uma auto-investigação, muitas vezes dilacerante.
Além disso, segundo Antonio Costa em seu livro Compreender o Cinema, "o roteiro, entendido como técnica de elaboração ou de 'pré-visualização' de um filme, constitui o ponto de referência para o preparo de todas as ações técnico-organizativas da realização". Esse é o profissional que fica no primeiro estágio constituinte da obra e que define os eventos posteriores, pois é dele que emana a obra, ainda que esta seja processada até tornar-se produto de outrem.
Entretanto, o meio audiovisual no Brasil tem relegado a um segundo plano essa atividade de fundamental importância. É preciso examinar as implicações de tal indiferença, como saída para uma produção artístico-cultural mais presente e próxima do público.
Consciente dessa necessidade, a Motion Picture Association/MPA, desde 1994, vem realizando uma ação direcionada ao crescimento profissional de roteiristas brasileiros e do Mercosul, tanto para aqueles já consagrados, quanto para estreantes e estudantes. Sendo uma associação de classe, representante dos sete maiores estúdios cinematográficos americanos, que atuam em cinema, home video, televisão e em novas tecnologias, a MPA se preocupa em oferecer iniciativas nas áreas cultural, educacional e técnica, nos países onde os seus estúdios operam.
A MPA tem interesse em melhorar os intrumentos de trabalho dos roteiristas, por estar "convicta de que um roteiro cinematográfico tecnicamente bem elaborado é a base para o sucesso comercial e artístico de qualquer filme", como informa Steve Solot, Vice-Presidente Senior para a América Latina. Com essa perspectiva, a MPA decidiu proporcionar ao cinema brasileiro uma contribuição para o aprimoramento e a formação profissional de roteiristas. E foi por considerar o roteiro uma peça essencial e de influência definitiva para um filme, assim como uma etapa indispensável à criação cinematográfica, que a MPA achou melhor começar sua colaboração a esse meio profissional através do roteirista. A implementação dessa iniciativa resultou em um projeto cultural e educacional conhecido como "MPA Workshop para Roteiristas Cinematográficos", cujo primeiro evento ocorreu em 1994 e passou a ser realizado anualmente, com a participação de Lucia Rangel, Diretora Jurídica para a América Latina, também do escritório regional da MPA no Rio de Janeiro.
Para ministrar os Workshops, oferecendo uma efetiva contribuição aos profissionais de roteiro, a MPA escolheu o especialista americano, professor e consultor de roteiros Syd Field, que já assessorou escritores, diretores e produtores como Laura Esquivel ("Como Água para Chocolate"), Jim Brooks ("Broadcast News") e, no Brasil, Zelito Viana ("Villa-Lobos Uma Vida de Paixão"). A opção por Syd Field se baseou no reconhecimento desse profissional como uma sumidade em roteiro cinematográfico, que, além do suporte especializado sobre o assunto, também formula princípios teóricos que são festejados em diversos países. Syd Field tem atividade docente nas Universidades de Harvard e UCLA, assim como no American Film Institute, em várias outras instituições e já tem, anualmente, reservado um período para os workshops da MPA.
Também escritor, Field é autor de 4 livros sobre roteiro de cinema, com 3 traduzidos no Brasil e sendo o primeiro, "Screenplay - The Foundation of Screenwriting", considerado pela indústria cinematográfica como uma 'bíblia' na matéria. Seus livros são adotados em cursos para roteiristas, em mais de 150 universidades americanas.
A consultoria prestada por Syd Field ao roteiro do filme do cineasta Zelito Viana deixou um gosto de "quero mais", a ponto do cineasta declarar "não faço outro filme sem a participação de Syd". Conta Zelito que Field elaborou um parecer de 15 páginas sobre o roteiro, propiciando uma importante colaboração, com enriquecimento do personagem principal e reestruturação da narrativa para tornar mais orgânicas as ações do personagem. "É coisa de quem conhece tudo de roteiro", afirma Zelito, também admitindo que os dois ficaram amigos e que o melhor dessa história foi ter conhecido Syd.
Escrever roteiro audiovisual requer as características típicas de um escritor e preparo específico para o meio. Alguma inventividade, sensibilidade, conhecimento técnico e noção de que o material a ser filmado terá um custo. Mas, acima de tudo, orientação. Nesse sentido, Denise Bandeira, roteirista de cinema e televisão, vê assim a contribuição de Field a seu trabalho: " Syd Field propõe um guia de viagem, e um equipamento de travessia bastante útil ao roteirista principiante perdido naquela inevitável selva de pontos de interrogação. Concordo com a máxima de seus livros que é: 'o mais difícil é saber sobre o quê você vai falar. Se você não sabe, quem é que vai saber?' A necessidade de conceituar o que se está escrevendo é fundamental para a clareza da história e o sentimento de identificação que ela deve provocar no leitor/espectador. A divisão em 3 atos - idéia Aristotélica, habilmente adaptada por Syd Field - ajuda o escritor a não perder o fio da meada".
Quanto à atenção aos pressupostos teóricos de Field, Denise comenta: "E já que se aprende teoria musical para tocar piano e perspectiva e volume para pintar, me parece uma boa idéia, aprender sobre estrutura dramática para escrever dramaturgia". A autora diz considerar muito útil e "honesto" tudo que Field aborda em seus livros, com destaque para o desprendimento com que ele afirma que, no que diz respeito a roteiros, não há palavra final nem verdade absoluta.
Foram várias as contribuições de Syd Field aos profissionais de roteiro do Mercosul, principalmente, esclarecendo que o roteiro é uma história contada em imagens e que a estrutura dramática é fundamental para a narrativa. Esses são os dois princípios mais conhecidos do acervo teórico de Field. Mas não são seus únicos pressupostos. De acordo com a cineasta Tereza Trautman, há muito mais a aprender com o consultor, percebido por ela nos dois workshops de que participou, em 1994 e 1995: "Syd ensina o ritmo, os ganchos, a tensão, o desenvolvimento dos personagens e da estória, com exploração de toda a gama de possibilidades, idiossincracias e contradições, e a arte de transformar tudo isso em imagens. Assim a tarefa de conquistar e entreter o público fica muito mais fácil e estes ensinamentos podem ser aplicados em filmes de qualquer assunto, gênero ou formato, até mesmo num 'drops informativo' de 3 minutos. Com os seus ensinamentos a tarefa de escrever um roteiro ficou muito mais fácil e mais lúdica".
Outro profissional encantado com Field é Antonio Carlos da Fontoura, roteirista e diretor de cinema e televisão, que já se considerava um veterano quando se inscreveu para o primeiro workshop da MPA e o fez sem muitas expectativas, mas ficou supreso: "O enfoque simples, direto, preciso e objetivo de Syd Field para a difícil tarefa de escrever e estruturar um roteiro cinematográfico teve um grande impacto na maneira como passei a escrever meus roteiros depois do workshop e, além disto, foi extremamente gratificante o contato humano com a agradável e doce criatura que ele revelou ser. Realmente achei tão importante em termos pessoais o resultado do workshop que passei a organizar, por conta própria, uma série de seminários com finalidade de transmitir aos meus alunos algumas das técnicas que me foram transmitidas por Syd".
Muita gente acha, equivocadamente, que a criatividade pode ser reprimida ou embotada se tiver que atentar a técnicas narrativas e a princípios teóricos que organizam o trabalho e fornecem instrumentos de preparação do mesmo. Entretanto, Field afirma que os seus fundamentos liberam a criatividade, aumentando as opções do criador. Visão compartilhada por Ricardo Bravo, roteirista de televisão e cinema - agora na direção de um longa, que usufruiu de contato direto com Field em workshops, e que atesta que "a imaginação pode decolar pra qualquer vôo se souber onde estão os aeroportos, o combustível, a razão da viagem". Como ponto alto do que oferece o consultor, Ricardo destaca: "O conforto da estrutura".
Antes do primeiro workshop promovido pela MPA havia, no Brasil, poucas obras disponíveis para o aprendizado do assunto e nenhum dos livros de Field estava acessível. Em 1994, durante o primeiro workshop, foi confirmado o lançamento de um dos livros de Syd Field para alguns meses depois, com tradução de Álvaro Ramos, roteirista de televisão já conhecido na época e autor de um longa-metragem premiado pela APCA.
Para Álvaro, não era novidade o livro de Field, "Screenplay - The Foundations of Screenwriting", traduzido por ele e publicado pela Editora Objetiva sob o título "Manual de Roteiro". Álvaro havia entrado em contato com o seu conteúdo quando estudava roteiro em Nova York, em 1982, passando a valorizar a estrutura de seus textos, quando já dominava bem a construção de personagens, de diálogos e de cenas. Daí Álvaro reconhecer a importância do embasamento proporcionado por esse estudo e a influência dele em sua trajetória, quando fala de Syd Field. "Com aquela técnica de compreensão fácil ele simplesmente desanuviou os meus horizontes profissionais. Posso até dizer que só ganhei segurança no meu texto após ler e estudar cuidadosamente os livros do Syd, incluindo aí o "Screenwriter's Workbook" (Os Exercícios do Roteirista)".
Além de traduzir 3 livros do consultor, Álvaro participou de dois workshops de Syd Field, sobre quem presta um depoimento entusiasmado:
"A oficina foi a chance de consolidar meus conhecimentos, de tirar dúvidas, de alcançar maior compreensão das técnicas desenvolvidas pelo Syd e, acima de tudo, entrar em contato com um ser humano maravilhoso, bom e generoso como poucos, dos tantos que eu já encontrei nessa vida já longa. Na verdade, reside aí o maior motivo da admiração que eu tenho pelo Syd. Quando li o Screenplay pela primeira vez, pensei: 'Mas esse cara tem o mapa da mina na mão, poderia estar rico, usufruindo sozinho da técnica que inventou, mas ainda assim tem o grande desprendimento e generosidade de publicá-la'. Desde esse primeiro momento coloquei-o num pedestal, acima dos teóricos comuns da dramaturgia audiovisual - e não me faltaram razões pra isso, como se vê. Depois, tive a oportunidade única de verter para o português os seus três primeiros livros. Aí também rolou a chance de me aprofundar nos estudos das técnicas do Syd e eu mais uma vez constatei a alavanca que essas técnicas podem significar. Claro que ainda são muito importantes o talento e a persistência, mas os livros do Syd constituem a 'plataforma de lançamento' mais poderosa com a qual eu pude entrar em contato".
Conforme atestam os depoimentos dos profissionais aqui apresentados e de diversos outros, direta ou indiretamente beneficiados pelos estudos propostos por Syd Field, tem sido valorosa a contribuição da MPA, ao longo de 4 anos, aos roteiristas e cineastas brasileiros e do Mercosul. E se fosse apenas essa, já seria bastante grande.
Mas, ao final do primeiro workshop, Field estimulou os participantes a continuarem a ampliação de seus conhecimentos, recebendo, de imediato, a adesão da MPA à idéia e a oferta de apoio às iniciativas que surgissem. Assim, a MPA não parou mais seu incentivo aos integrantes do que ficou conhecido como Grupo de Roteiristas, que cresce a cada ano com a entrada de novos membros, trazidos pelos workshops anuais e por interessados que se inteiraram de sua existência.
Desde então, a MPA suportou grupos de estudos para análise de roteiros, promoveu encontros para ver filmes, novos workshops e vem apoiando a publicação de um informativo periódico voltado a roteiristas.
Tudo isso tem favorecido a formação e o crescimento de roteiristas, além de ajudar a ver o rosto desse meio profissional, que, como toda feição, tem vários traços diferentes, mas uma fisionomia única.
OUTUBRO 1998
*Comunicóloga e roteirista de vídeo e multimídia.
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