Chateaubriand em todas as telas

República Nova Trecho do roteiro de ``Assis Chateaubriand - Cabeça de Paraíba''

Crítica e criação

Chateaubriand em todas as telas

Helvécio Carlos

ma das figuras mais importantes da história do Brasil, Assis Chateaubriand vai ganhar as telas do Brasil. A partir do segundo semestre deste ano, o produtor Marcos Manhães Marins, pretende concretizar um sonho acalentado ao longo de quase dez anos: levar para o cinema a obra e a vida de Chatô, que será interpretado pelos atores Paulo Betti e Othon Bastos. Orçado em R$ 2 milhões, ``Chateaubriand - Cabeça de Paraíba'' é um projeto anterior ao do produtor Guilherme Fontes baseado na obra ``Chatô - O Rei do Brasil'', de Fernando Moraes.

 Apesar de o personagem central dos dois projetos serem o mesmo, Marins garante não haver nenhuma semelhança entre eles. A começar pelas cifras. ``O de Guilherme Fontes está avaliado em R$ 12 milhões, o meu R$ 10 milhões a menos. Apesar dessa diferença econômica, garanto que não haverá deficiência de qualidade'', promete.

 Outro detalhe diz respeito a inspiração para a produção de ``Cabeça de Paraíba''. O roteiro foi escrito por Marins a partir de depoimentos de amigos e adversários do fundador dos Diários e Emissoras Associados, coletados ao longo de dois anos. No total foram 100 entrevistas entre 1992 e 1994. ``Guilherme Fontes, pelo que já li nos jornais, vai com o seu texto criar um novo Macunaíma. No meu filme, a minha preocupação é mostrar o homem, construído através de depoimentos''.

 A diferença entre as duas produções também aparece no que diz respeito ao total de recursos já captados para a realização do filme. O trabalho de Fontes já está com 70% dos recursos necessários enquanto o de Marins ainda não atingiu 50%.

  Homenagem

 O projeto de Marcos Manhães vem caminhando a passos lentos ao longo da década. A inspiração surgiu em 1992, ano do centenário de nascimentos de Assis Chateaubriand. ``Até a metade daquele ano não havia sido produzido nenhuma homenagem ao homem que trouxe a televisão ao Brasil. Houve apenas uma entrevista, na TV Corcovado, com o presidente dos Diários e Emissoras Associados, Paulo Cabral. Achei um absurdo a falta de uma programação à altura da importância de Chateaubriand para o País''. Revoltado com o descaso dos meios de comunicação, não pensou duas vezes ao sentar-se para criar um projeto. Surgiu então a idéia de um roteiro para minissérie dramática, em cinco capítulos. Já naquela época o papel principal seria de Othon Bastos. O projeto foi um dos primeiros a ser beneficiado com a Lei Rouanet.

 Ao mergulhar nas pesquisas, Marcos transformou a minissérie em filme. O roteiro acabou sendo editado e chegou às livrarias antes mesmo de ``Chatô - O Rei do Brasil'' se transformar em um dos maiores sucessos literários dos últimos anos.

República Nova Trecho do roteiro de ``Assis Chateaubriand - Cabeça de Paraíba''



  Local: Sede de ``O Jornal'', em 1927 Getúlio Vargas aguarda Assis, que entra falando de braços abertos.

 ASSIS: Getúlio Vargas, meu presidente!

 GETÚLIO: Calma, Assis, sou apenas Ministro da Fazenda.

 ASSIS: Mas de um governo podre, que logo vai cair (senta-se à sua mesa). Mais alguma notícia de corrupção dessa cambada do presidente Washington Luís?

 GETÚLIO: (entregando-lhe uns papéis) Espero que faça bom uso destas informações.

 ASSIS: (olhando os papéis) Farei. E assim que lançar a sua candidatura...

 GETÚLIO: Não sou candidato a nada.

 ASSIS: Ora, Getúlio, pensa que eu não sei o que os mineiros e os gaúchos estão tramando?

 GETÚLIO: (sorrindo) Você sabe de tudo, não é, Assis? Pois, espero contar sempre com a sua amizade e discrição.

 ASSIS: (indicando a sua mesa) O importante é que o senhor pode contar com meus jornais para derrubar essa política das oligarquias, onde um grupinho fica decidindo quem agora vai comandar a roubalheira.

 GETÚLIO: Em breve isso será coisa do passado.

 ASSIS: Já estou pensando aqui na primeira capa da revista ``O Cruzeiro'': ``Abaixo a Velha República!''

 GETÚLIO: Mas você nem tem a revista ainda...

 ASSIS: (rindo, apertando a mão de Getúlio) Ainda.

Crítica e criação



 Marcos Manhães Marins, é roteirista e diretor cinematográfico. Fez a direção geral de ``Alta Rotação'', com Othon Bastos, Cássia Kiss e Guilherme Karam, e nos últimos anos, além de dirigir, pela Fibra Vídeo, os trabalhos do Projeto ``Chateaubriand - Cabeça de Paraíba'', tem dirigido documentários para o Centro Brasileiro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente. É contratado como roteirista e diretor pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, por onde é graduado.

 Tem cursos de Cinema na Universidade de Londres e no British Film Institute, onde produziu ensaios críticos sobre filmes como ``Hiroshima, Mon Amour'' e ``Manuscrito de Saragozza''. Em 1991, visitou a França para se aproximar da arte e da cultura européia, admiradas por Assis Chateaubriand.

 Enquanto trabalha no projeto de seu primeiro longa-metragem, dirige desde 1995 o Projeto Cultural Cinema Brasil na Internet, que vem divulgando o cinema brasileiro para o Brasil e o mundo (http://www.cinemabrasil.org.br). Marins é o organizador da TV-Net Cinemabrasil, uma emissora-piloto que exibe em tempo real, via Internet, trechos de filmes brasileiros e entrevistas exclusivas.
Data: 11 de Fevereiro de 1999
Site do filme: http://www.chateaubriand.com.br