O GLOBO 23/02/98

  

                Prêmio inédito fortalece volta do cinema nacional
                                                                        
                No sábado à noite, Walter Salles estava em Paris quando recebeu um
                telefonema da organização do festival pedindo que voltasse para Berlim.
                Ligou para Fernanda Montenegro, que estava em Praga, e seguiu para a
                Alemanha, onde chegou uma hora antes da divulgação dos resultados. 

                - Quando me ligaram para voltar a Berlim, estava na casa de amigos e
                pulei de felicidade - contou Salles. 

                Sem tempo para almoçar, o diretor fez um lanche rápido e trocou a
                camisa xadrez da viagem por paletó e gravata enquanto esperava o
                anúncio dos prêmios. 

                - Sabia que tínhamos ganhado um prêmio, mas não sabia qual. Sem
                "Vidas secas", de Nelson Pereira, e "Pixote", de Hector Babenco,
                "Central" não teria existido. Estou emocionado porque o cinema brasileiro
                foi ceifado e só voltou a existir nos anos 90. 

                Fernanda contou que não conseguiu chegar a tempo do anúncio da
                premiação, e soube que receberia o troféu de melhor atriz através de
                repórteres estrangeiros que a procuraram no hotel. Modesta, ela acredita
                que um dos trunfos do filme é o trabalho de direção de Salles com o
                menino Vinicius de Oliveira, que interpreta o sofrido Josué: 

                - Waltinho foi muito delicado durante as filmagens, e percebeu que
                Vinicius tinha vivência para certas situações exigidas pelo roteiro - disse
                ela, que, em 1981, viu o filme por "Eles não usam black-tie", do qual
                participou, ganhar o Leão de Ouro em Veneza. - O menino teve uma
                infância dura e queria acertar. 

                O Urso de Ouro é um prêmio inédito para o cinema brasileiro, mas três
                filmes já tinham sido premiados com o Urso de Prata: "Os fuzis" (1964) e
                "A queda" (1978), de Ruy Guerra, e "Brasil ano 2000", de Walter Lima Jr.
                (1969). Antes de Fernanda, Marcela Cartaxo ("A hora da estrela", de
                1986) e Ana Beatriz Nogueira ("Vera", de 1987) receberam o prêmio de
                melhor atriz. 

                O produtor de "Central do Brasil", Arthur Cohn, disse que tem certeza de
                que o filme fará sucesso em todo mundo, porque "sua linguagem é
                universal": 

                - Descobri Jean-Jacques Annaud e produzi quatro filmes de Vittorio De
                Sicca. Mas nunca tive uma colaboração como a de Salles, que tem uma
                grande consciência de sua nacionalidade. 

                "Central" conta a história de Dora (Fernanda), professora aposentada que
                cobra para escrever cartas para analfabetos na Central do Brasil, mas não
                as envia. Ela conhece a família de Josué (Vinicius de Oliveira), e, quando
                a mãe do menino morre, ela o vende para traficantes. Tem uma crise de
                consciência, recupera Josué e, perseguida pelos bandidos, foge para o
                Nordeste em busca do pai do garoto. 

                Parte da equipe do filme estava reunida numa fazenda em São Carlos do
                Pinhal, em São Paulo, onde soube da premiação por um telefonema do
                diretor. Cássio Amarante, que fez a direção de arte, disse que soube do
                enredo de "Central" há três anos, quando filmava um comercial com
                Salles no Deserto de Atacama. 

                - Quando "Central" ficou pronto, era o mesmo filme de três anos atrás -
                contou ele. - É maravilhoso trabalhar com alguém que sabe o que quer. 

                O carnaval na fazenda reuniu a família do cartunista Ziraldo, que em parte
                é a família cinematográfica de Walter Salles, já que três dos filhos de
                Ziraldo trabalharam com o diretor: Antônio Alves Pinto assina a trilha
                sonora de "Central do Brasil", enquanto Daniela Thomas e Fernando Alves
                Pinto participaram de "Terra estrangeira" - ela como co-diretora, ele como
                o protagonista, Paco. 

                - Estou em ebulição - vibrava Daniela Thomas, que vai dirigir Fernanda
                Montenegro na peça "A gaivota", de Tchecov. - Waltinho dedica a vida à
                missão de fazer cinema. Por um filme, transforma 24 horas em 48. 

                Os cineastas brasileiros também festejaram a vitória de "Central". Cacá
                Diegues fez questão de ligar para Salles em Berlim. 

                - Estou radiante, não só porque o filme é lindo, mas também pela
                Fernanda, que merecia reconhecimento - disse ele. - Só há bom filme
                com muita produção. 

                O produtor Luiz Carlos Barreto repetiu a frase do filho Bruno, que concorre
                ao Oscar de melhor filme estrangeiro com "O que é isso, companheiro?": 

                - Já temos um candidato para o Oscar do ano que vem. 

                                                                       Mais informações:
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