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- Cinema na Era do Marketing -
- Jornal do Brasil -  20/05/97 - César Benjamiun -
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Nos primeiros dias de setembro de 1969, o país vivia um suspense: o embaixador americano era refém de um grupo guerrilheiro no Rio. Impasse e tensão. A crise ainda não tinha desfecho visível quando o Centro de Informações da Marinha localizou e cercou o cativeiro. As autoridades - e, por extensão, os guerrilheiros - viram-se diante de decisões que envolviam não só conseqüências políticas, mas a vida e a morte. Divididos sobre a aceitação das exigências do grupo, os militares tinham agora a possibilidade de um ataque direto. A Junta que ocupava a Presidência acompanhava as operações em tempo real, passo a passo: recém-empossada sob contestações de todos os lados, sabia não ter controle total sobre a tropa.

Esse foi um dos momentos dramáticos do episódio que estamos todos revendo nas telas, em O que é isso, companheiro?, de Bruno Barreto. Um prato feito para profissionais do suspense, gente dotada de olhar arguto sobre paixões e sentimentos humanos, roteiristas hábeis em reconstruir contextos ou desvendar, às vezes através de detalhes, a lógica de funcionamento de mecanismos decisórios em situações de tensão. Principalmente se todos têm a seu favor a liberdade que a recriação ficcional propicia. Recordemos a narrativa do filme: o agente da Marinha está a um passo de confirmar a informação mais cobiçada daquele momento. Dificilmente teria outra chance como essa em sua carreira. Disfarça-se de trabalhador telefônico, sobe num poste a poucos metros da casa (passando de vigia a vigiado), instala as engenhocas de escuta. Uma vez lá em cima, o que faz? Liga para a namorada, é claro. Desce, tira o macacão e toca a campainha da casa, travestido de outra coisa qualquer. Só não muda o próprio rosto, visível para os guerrilheiros, um pouco antes, no alto do poste. Segue-se curto diálogo. Seqüestradores e agentes farejam-se uns aos outros. Estes últimos se retiram, sendo seguidos numa rua deserta, a um metro e meio de distância, pelo saltitante guerrilheiro Paulo. Agachado atrás de um muro, nosso herói espicha o pescoço e ouve a comunicação dos militares com sua central. A base dos especialistas em segurança, como se vê, não tinha segurança nenhuma.

De volta, o guerrilheiro-espião confirma aos demais a inquietante suspeita: a casa fora localizada. Estavam cercados. Que fazem, então, nas cenas seguintes? O experiente Jonas desmonta sua própria metralhadora e prossegue em maquinações infantis contra Paulo. Este e a comandante Maria - durona, mas no fundo carente - vão para o quarto fazer amor, pois ninguém é de ferro. Segue-se um animado bate-papo geral na cozinha, regado a cerveja, embora sem pagode (afinal, a casa estava cercada!). Depois o grupo se junta na sala da televisão no andar térreo, todos de costas para a janela, atrás da qual - eles sabiam - estava a polícia.

Não, meus amigos, não é um roteiro de Casseta e Planeta. É do nosso filme do ano, que não foi feito para ser engraçado. Fui vê-lo e pensei: se fizéssemos guerrilha com a incompetência com que essa gente faz cinema, teríamos lutado uma ou duas semanas, se tanto, não anos. A não ser que esteja correta outra informação que Serran e Barreto nos dão: em nosso encalço estava um aparato policial-militar que se resumia praticamente a um só indivíduo, aliás com dramas de consciência. Entre uma e outra discussão com a namorada, esse coitado fazia os relatórios de praxe, montava estratégias de investigação, ia atrás de donos de botequins, escalava postes, tudo observava, envolvia-se em perseguições e interrogava presos. Será que, ao menos, ganhava hora extra?

O que é isso, companheiro? mostra que o cinema brasileiro evoluiu muito - principalmente no marketing. Profissionalismo, seriedade e talento, escassos na concepção do filme, transbordam na operação publicitária que o cerca. Queriam polêmica em torno dessa versão do seqüestro, pois polêmica vende. Com dinheiro e competência, contratando bons profissionais, semearam discussões imaginárias sobre maniqueísmo, ficção, realidade, liberdade de criação, esquerda, patrulhamento. Inventaram a versão crítica de que necessitavam, feita sob medida para ser espancada; como ninguém a assumia, produziram o portador metafísico dessa versão inventada, "a esquerda". Nos dias de hoje, para lembrar Casablanca, ela é a suspeita de sempre.

A operação de marketing, maior do que o filme, segue a mesma técnica disseminada no mundo da mídia, que molda o mundo da nossa pseudocultura. É intrinsecamente autoritária, pois sua eficácia depende de garantir para si completa liberdade. Precisa desqualificar previamente, e sem apelação, adversários reais ou imaginários, efetivos ou potenciais. Precisa manter controle sobre qualquer irrupção impertinente do real, de modo a usar a verdade, para lembrar Guy Debord, como um momento fugaz da mentira. E, antes de tudo, precisa impedir que as pessoas formem livremente o próprio juízo, ou seja, que pensem: o dinheiro investido e a perspectiva antevista de lucro são grandes demais para que se corra esse risco. Vende-se assim tudo o que o sistema deseja vender: sabonetes e refrigerantes, a Companhia Vale do Rio Doce, corpos femininos, um novo filósofo, cigarros, a felicidade, um filme, intelectuais contestadores. E os políticos que aí estão. Os únicos antagonistas reais dessa grande engrenagem são os que decidem ficar fora dela.

No caso de O que é isso, companheiro?, o barulho publicitário serve para esconder algo simples: a menos de dois ou três bons momentos, o roteiro é primário, os personagens são pobres, a recriação de situações humanas não é competente. Os autores do filme poderiam ter feito a opção de não abordar diretamente a tortura, assunto marginal à temática central. Quiseram mostrá-la. Mas, como tudo é relativo e não parece haver mais valores a defender, apresentam uma tortura limpinha, que quase não dói, no corpo ou no espírito. Mantêm eqüidistância até mesmo aí. Opção discutível. Ela pode levar a dupla a produzir, no futuro, um roteiro que mostre a complexidade humana, certamente real, de cinco jovens de Brasília, em contraste com os defeitos, reais ou inventados, de um pataxó desavisado (creio que não o farão, por enquanto: análises mercadológicas desaconselhariam esse filme).

Desculpem, mas a tortura não é bem assim. A valentia do torturado, quando ele não quebra, concentra-se toda na tentativa elementar de controlar o desespero; sua esperança, quando consegue mantê-la, é usar a única arma que lhe resta, pois em horas, ou poucos dias, uma organização clandestina desfaz os laços que ligam o militante preso e os demais. Estabelece-se uma corrida contra o tempo para os dois lados, tão desiguais. Isso produz ambientes bem diferentes dos que o filme nos mostra: em lugar do agente conservador, dez ou 12, muito excitados. Medo, degradação, humilhação. E fedor. Pois a tortura fede - a suor, sangue pisado e excremento, que se acumulam dias a fio no chão, nas paredes e no corpo do seviciado nu. Grita-se muito. Vê-se a morte. Sente-se uma imensíssima sede - e nada disso tem a ver com maniqueísmo nenhum . Nem tudo é relativo.

Serran e Barreto só combatem o maniqueísmo quando lhes convém. Onde dizem seguir princípios, fazem escolhas. Vejamos Jonas: é um canalha perfeito, que ameaça de morte seus companheiros, faz intrigas irritantes, submete o refém a tortura moral e precisa ser contido para não escalar em direção a atitudes mais bárbaras (Jonas, na vida real, foi o operário Virgílio Gomes da Silva, militante respeitado e digno, de longa trajetória, trucidado na Operação Bandeirantes; não teve chance de escrever livro contando suas façanhas nem creio que viesse a ter interesse nisso). Vejamos Paulo: tem a idéia do seqüestro (é criativo), conquista o coração de Maria (é sedutor), recusa-se a usar capuz diante do embaixador (é elegante), diverge abertamente das malvadezas de Jonas (é ousado), escreve um belo manifesto (é inteligente), fala inglês (é culto), percebe que a luta armada está isolada (é maduro) e, quando pendurado no pau-de-arara, responde com gracinhas corajosas às gracinhas do torturador. Vai para o trono ou não vai? (Paulo, na vida real, é Fernando Gabeira, cujo relato, considerado fantasioso por seus companheiros , serviu de base aos autores do filme). Quanto aos outros, nada a dizer: são figurantes caricatos ou anódinos, desertos de humanidade. O talento dramático do roteirista esgotou-se em dois personagens, o bom e o mau, e a única esperteza antimaniqueísta é que eles foram colocados no mesmo lado.

O que é isso, companheiro? terá o destino de toda mercadoria ruim, porém bem-lançada: badalação, sucesso e esquecimento, caminho inverso ao percorrido por obras de arte. Que ninguém fique triste com isso: novas mercadorias serão bem-lançadas, no tempo devido, para prosseguir a fuga para a frente de que nossa sociedade precisa. Não creio - fique claro - que o filme seja mal intencionado. Talvez seja o máximo que Serran e Barreto consigam realizar. Mas, num país que faz música, literatura e teatro da melhor qualidade, esses cineastas aprendizes continuam nos devendo trabalhos à altura da empáfia que ostentam, dos lobbies que têm e do dinheiro que ganham. E, agora, do marketing que aprenderam a fazer.


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