Nos primeiros dias de setembro de 1969, o país vivia um
suspense: o embaixador americano era refém de um grupo guerrilheiro
no Rio. Impasse e tensão. A crise ainda não tinha desfecho
visível quando o Centro de Informações da Marinha localizou
e cercou o cativeiro. As autoridades - e, por extensão, os guerrilheiros
- viram-se diante de decisões que envolviam não só
conseqüências políticas, mas a vida e a morte. Divididos
sobre a aceitação das exigências do grupo, os militares
tinham agora a possibilidade de um ataque direto. A Junta que ocupava a
Presidência acompanhava as operações em tempo real, passo
a passo: recém-empossada sob contestações de todos os
lados, sabia não ter controle total sobre a tropa.
Esse foi um dos momentos dramáticos do episódio
que estamos todos revendo nas telas, em O que é isso, companheiro?,
de Bruno Barreto. Um prato feito para profissionais do suspense, gente dotada
de olhar arguto sobre paixões e sentimentos humanos, roteiristas
hábeis em reconstruir contextos ou desvendar, às vezes
através de detalhes, a lógica de funcionamento de mecanismos
decisórios em situações de tensão. Principalmente
se todos têm a seu favor a liberdade que a recriação
ficcional propicia. Recordemos a narrativa do filme: o agente da Marinha
está a um passo de confirmar a informação mais
cobiçada daquele momento. Dificilmente teria outra chance como essa
em sua carreira. Disfarça-se de trabalhador telefônico, sobe
num poste a poucos metros da casa (passando de vigia a vigiado), instala
as engenhocas de escuta. Uma vez lá em cima, o que faz? Liga para
a namorada, é claro. Desce, tira o macacão e toca a campainha
da casa, travestido de outra coisa qualquer. Só não muda o
próprio rosto, visível para os guerrilheiros, um pouco antes,
no alto do poste. Segue-se curto diálogo. Seqüestradores e agentes
farejam-se uns aos outros. Estes últimos se retiram, sendo seguidos
numa rua deserta, a um metro e meio de distância, pelo saltitante
guerrilheiro Paulo. Agachado atrás de um muro, nosso herói
espicha o pescoço e ouve a comunicação dos militares
com sua central. A base dos especialistas em segurança, como se vê,
não tinha segurança nenhuma.
De volta, o guerrilheiro-espião confirma aos demais
a inquietante suspeita: a casa fora localizada. Estavam cercados. Que fazem,
então, nas cenas seguintes? O experiente Jonas desmonta sua própria
metralhadora e prossegue em maquinações infantis contra Paulo.
Este e a comandante Maria - durona, mas no fundo carente - vão para
o quarto fazer amor, pois ninguém é de ferro. Segue-se um animado
bate-papo geral na cozinha, regado a cerveja, embora sem pagode (afinal,
a casa estava cercada!). Depois o grupo se junta na sala da televisão
no andar térreo, todos de costas para a janela, atrás da qual
- eles sabiam - estava a polícia.
Não, meus amigos, não é um roteiro de
Casseta e Planeta. É do nosso filme do ano, que não foi feito
para ser engraçado. Fui vê-lo e pensei: se fizéssemos
guerrilha com a incompetência com que essa gente faz cinema, teríamos
lutado uma ou duas semanas, se tanto, não anos. A não ser que
esteja correta outra informação que Serran e Barreto nos dão:
em nosso encalço estava um aparato policial-militar que se resumia
praticamente a um só indivíduo, aliás com dramas de
consciência. Entre uma e outra discussão com a namorada, esse
coitado fazia os relatórios de praxe, montava estratégias de
investigação, ia atrás de donos de botequins, escalava
postes, tudo observava, envolvia-se em perseguições e interrogava
presos. Será que, ao menos, ganhava hora extra?
O que é isso, companheiro? mostra que o cinema brasileiro
evoluiu muito - principalmente no marketing. Profissionalismo, seriedade
e talento, escassos na concepção do filme, transbordam na
operação publicitária que o cerca. Queriam polêmica
em torno dessa versão do seqüestro, pois polêmica vende.
Com dinheiro e competência, contratando bons profissionais, semearam
discussões imaginárias sobre maniqueísmo,
ficção, realidade, liberdade de criação, esquerda,
patrulhamento. Inventaram a versão crítica de que necessitavam,
feita sob medida para ser espancada; como ninguém a assumia, produziram
o portador metafísico dessa versão inventada, "a esquerda".
Nos dias de hoje, para lembrar Casablanca, ela é a suspeita de
sempre.
A operação de marketing, maior do que o filme,
segue a mesma técnica disseminada no mundo da mídia, que molda
o mundo da nossa pseudocultura. É intrinsecamente autoritária,
pois sua eficácia depende de garantir para si completa liberdade.
Precisa desqualificar previamente, e sem apelação,
adversários reais ou imaginários, efetivos ou potenciais. Precisa
manter controle sobre qualquer irrupção impertinente do real,
de modo a usar a verdade, para lembrar Guy Debord, como um momento fugaz
da mentira. E, antes de tudo, precisa impedir que as pessoas formem livremente
o próprio juízo, ou seja, que pensem: o dinheiro investido
e a perspectiva antevista de lucro são grandes demais para que se
corra esse risco. Vende-se assim tudo o que o sistema deseja vender: sabonetes
e refrigerantes, a Companhia Vale do Rio Doce, corpos femininos, um novo
filósofo, cigarros, a felicidade, um filme, intelectuais contestadores.
E os políticos que aí estão. Os únicos antagonistas
reais dessa grande engrenagem são os que decidem ficar fora dela.
No caso de O que é isso, companheiro?, o barulho
publicitário serve para esconder algo simples: a menos de dois ou
três bons momentos, o roteiro é primário, os personagens
são pobres, a recriação de situações humanas
não é competente. Os autores do filme poderiam ter feito a
opção de não abordar diretamente a tortura, assunto
marginal à temática central. Quiseram mostrá-la. Mas,
como tudo é relativo e não parece haver mais valores a defender,
apresentam uma tortura limpinha, que quase não dói, no corpo
ou no espírito. Mantêm eqüidistância até mesmo
aí. Opção discutível. Ela pode levar a dupla
a produzir, no futuro, um roteiro que mostre a complexidade humana, certamente
real, de cinco jovens de Brasília, em contraste com os defeitos, reais
ou inventados, de um pataxó desavisado (creio que não o
farão, por enquanto: análises mercadológicas
desaconselhariam esse filme).
Desculpem, mas a tortura não é bem assim. A
valentia do torturado, quando ele não quebra, concentra-se toda na
tentativa elementar de controlar o desespero; sua esperança, quando
consegue mantê-la, é usar a única arma que lhe resta,
pois em horas, ou poucos dias, uma organização clandestina
desfaz os laços que ligam o militante preso e os demais. Estabelece-se
uma corrida contra o tempo para os dois lados, tão desiguais. Isso
produz ambientes bem diferentes dos que o filme nos mostra: em lugar do agente
conservador, dez ou 12, muito excitados. Medo, degradação,
humilhação. E fedor. Pois a tortura fede - a suor, sangue pisado
e excremento, que se acumulam dias a fio no chão, nas paredes e no
corpo do seviciado nu. Grita-se muito. Vê-se a morte. Sente-se uma
imensíssima sede - e nada disso tem a ver com maniqueísmo nenhum
. Nem tudo é relativo.
Serran e Barreto só combatem o maniqueísmo quando
lhes convém. Onde dizem seguir princípios, fazem escolhas.
Vejamos Jonas: é um canalha perfeito, que ameaça de morte seus
companheiros, faz intrigas irritantes, submete o refém a tortura moral
e precisa ser contido para não escalar em direção a
atitudes mais bárbaras (Jonas, na vida real, foi o operário
Virgílio Gomes da Silva, militante respeitado e digno, de longa
trajetória, trucidado na Operação Bandeirantes; não
teve chance de escrever livro contando suas façanhas nem creio que
viesse a ter interesse nisso). Vejamos Paulo: tem a idéia do
seqüestro (é criativo), conquista o coração de
Maria (é sedutor), recusa-se a usar capuz diante do embaixador (é
elegante), diverge abertamente das malvadezas de Jonas (é ousado),
escreve um belo manifesto (é inteligente), fala inglês (é
culto), percebe que a luta armada está isolada (é maduro) e,
quando pendurado no pau-de-arara, responde com gracinhas corajosas às
gracinhas do torturador. Vai para o trono ou não vai? (Paulo, na vida
real, é Fernando Gabeira, cujo relato, considerado fantasioso por
seus companheiros , serviu de base aos autores do filme). Quanto aos outros,
nada a dizer: são figurantes caricatos ou anódinos, desertos
de humanidade. O talento dramático do roteirista esgotou-se em dois
personagens, o bom e o mau, e a única esperteza antimaniqueísta
é que eles foram colocados no mesmo lado.
O que é isso, companheiro? terá o destino de
toda mercadoria ruim, porém bem-lançada: badalação,
sucesso e esquecimento, caminho inverso ao percorrido por obras de arte.
Que ninguém fique triste com isso: novas mercadorias serão
bem-lançadas, no tempo devido, para prosseguir a fuga para a frente
de que nossa sociedade precisa. Não creio - fique claro - que o filme
seja mal intencionado. Talvez seja o máximo que Serran e Barreto consigam
realizar. Mas, num país que faz música, literatura e teatro
da melhor qualidade, esses cineastas aprendizes continuam nos devendo trabalhos
à altura da empáfia que ostentam, dos lobbies que têm
e do dinheiro que ganham. E, agora, do marketing que aprenderam a fazer.
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