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- Memória de Chumbo-
- O Globo - Segundo Caderno -27/04/97-

- Carlos Helí de Almeida e Luiz Fernando Vianna-
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Muitos foram os perseguidos pelo regime militar brasileiro e, destes, muitos não sobreviveram à repressão. Um número menor conseguiu dividir suas dolorosas memórias do cárcere com os que não participaram da luta armada, vertendo suas experiências para livros, filmes e peças de teatro. O thriller político "O que é isso, companheiro?", que estréia em 1° de maio, é o mais recente exemplo de reminiscência de guerrilha transformada em ficção. Livremente inspirado no livro homônimo do hoje deputado federal Fernando Gabeira, no qual relata o seu envolvimento com a luta armada, o filme de Bruno Barreto volta a cutucar feridas que, pelo menos para aqueles que as sentiram na carne, estão longe de cicatrizar. E o processo de externá-las funciona, em alguns casos, como terapia.

- Apesar de ter sido preso, das torturas que sofri e do tiro que debilitou definitivamente o meu fígado, a sensação de escrever "O que é isso, companheiro?" foi uma coisa até prazerosa. No meu caso, o livro era uma espécie de ajuste de contas com aquele período - diz Gabeira, que foi integrante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), organização paramilitar que seqüestrou o embaixador americano Charles Elbrick em 1969, episódio retratado no filme de Barreto. - Eu estava voltando para o Brasil e senti como se estivesse me despedindo do passado. Eu queria começar uma vida nova.

Nem todos os ex-militantes conseguiram trabalhar o tema da tortura sem traumas. A jornalista e cineasta Lúcia Murat, por exemplo, levou quase dez anos para dar sua visão no filme "Que bom te ver viva". Misto de documentário e ficção, o filme alinhava depoimentos de oito ex-presas políticas com falas de uma personagem fictícia e alter ego da diretora, interpretada por Irene Ravache.

Agente do MR-8, Lúcia foi presa em 1971 e torturada nos dois primeiros meses dos três anos e meio que passou na prisão. "Que bom te ver viva" é o resultado de sete anos de psicanálise.

- Nos primeiros anos da análise eu passava quase o tempo todo da sessão chorando - conta Lúcia. - O filme começa com uma frase do psicanalista Bruno Betelheim, que diz que "a psicanálise explica porque você enlouquece, mas não porque você sobrevive". É quase uma afirmação e uma negação do que eu vivi.

A guerrilha, suas conquistas e derrotas, são uma página virada na vida do escritor e poeta Alex Polari. O hoje presidente da associação de moradores de Céu do Mapiá, uma comunidade que nasceu há 20 anos em torno da cultura do Santo Daime, eternizou suas experiências na clandestinidade numa série de sofridos poemas, publicados em 1979 sob o título de "Inventário de cicatrizes".

O livro foi escrito ao longo do último dos oitos anos de prisão aos quais fora condenado, acusado de pertencer à Vanguarda Popular Revolucionária e participar dos seqüestros de dois embaixadores estrangeiros.

- Acredito que o livro ajudou a dar um sentido a uma vida, foi uma espécie de catarse - lembra Polari, que posteriormente escreveu um romance inspirado na guerrilha, "Camarim de prisioneiro". - Os poemas surgiram da necessidade de recuperar uma experiência que beirou uma situação- limite, de vida ou de morte.

Polari não se arrepende da militância, mas acredita que a guerrilha foi apenas uma etapa de um processo de evolução espiritual:

- Num primeiro momento, escrever os poemas teve um lado doloroso, porque mexia diretamente com torturas, os amigos que desaparecem. Mas já não sinto esse peso. Minha vida tomou um caminho espiritual, tenho outra compreensão do mundo. Hoje estou mais tranqüilo.

Alfredo Sirkis participou como militante da Vanguarda Popular Revolucionária dos seqüestros dos embaixadores alemão e suíço, mas conseguiu não ser preso, fugindo para um exílio de sete anos. Ao voltar, lançou "Os carbonários", um best-seller cuja avaliação da guerrilha Sirkis, hoje militante do Partido Verde, não mudou.

- Achávamos que estávamos fazendo uma revolução socialista, quando estávamos participando de uma resistência contra um regime autoritário - diz ele. - Como resistência à guerrilha é válida, mas regimes que se instauram pela violência tendem a ser ditatoriais.

O jornalista Álvaro Caldas já transformou suas experiências em relato e ficção. O segundo caso, "Balé da utopia", saiu no ano passado. Já "Tirando o capuz", de 1980, reconstituiu seus três anos de militância no Partido Comunista Brasileiro Revolucionário e os outros três em que passou preso e foi torturado durante 60 dias no Doi-Codi.

- A tortura é uma negociação em que a dor é uma aliada de quem está torturando - diz ele, preso depois de um colega ter dito seu nome numa sessão de tortura. - O que se podia fazer era tentar salvar o mais importante, mas não dava para segurar tudo. Nós éramos muito rigorosos ao julgar como traidor quem falava alguma coisa sob tortura. Não há ideologia na tortura.

Álvaro acredita que o momento é de reavaliação do período, o que provoca nele um temor:

- A discussão não pode ser despolitizada, não podem nos transformar em garotos porra-louca que não fomos. Era um momento histórico específico. Erramos muito, mas toda paixão é cheia de erros. E, pelo menos, tínhamos uma esperança de transformação do mundo, enquanto hoje faltam utopias aos jovens.

A preocupação do historiador Daniel Aarão Reis, dirigente do MR-8 na época do seqüestro e autor da tese "A revolução faltou ao encontro", publicada em 1991, é que a reavaliação atual reforce uma idéia predominante no país.

- Os livros de Gabeira ("O que é isso, companheiro?") e Zuenir Ventura ("1968: O ano que não terminou") ganharam popularidade não só porque eles escrevem bem, mas também por recuperar o passado de maneira suave, bem-humorada e conciliadora com a ditadura. O filme do Bruno Barreto vai além e absolve a ditadura, não por apresentar um torturador com conflitos, mas por mostrar guerrilheiros sem conflitos, simplórios.

Daniel, que foi trocado pelo embaixador alemão em 70, e pôde se exilar, não pôs relatos pessoais em seu livro, optando pela análise da época. Para ele, a guerrilha não venceu o regime por não ter o apoio da sociedade:

- Nós estávamos isolados. Senão, a ditadura teria sido escorraçada. O que eu condeno é a conciliação com a ditadura. É preciso refletir de maneira crítica sobre ela, pensar o porquê de a sociedade ter dado apoio a ela. Se não for assim, virá um dia outra ditadura, porque temos uma longa tradição autoritária.

O teatro ainda não entrou na esteira atual de reavaliação. Fez isso em 1983, com "A lira dos 20 anos", peça de Paulo César Coutinho (já morto), e em 1985, com "A nossa voz", de Luiz Maria Lima, que tinha a tortura como tema. João das Neves, diretor da peça e autor de um texto sobre os anos de chumbo ("A pandorga e a lei"), acredita que o teatro virá a tratar novamente do assunto:

- A tortura foi um problema que vivemos no regime militar, mas que também existe no regime democrático, contra minorias e pobres. O teatro certamente fará uma reflexão sobre isso.


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