Muitos foram os perseguidos
pelo regime militar brasileiro e, destes, muitos não sobreviveram
à repressão. Um número menor conseguiu dividir suas
dolorosas memórias do cárcere com os que não participaram
da luta armada, vertendo suas experiências para livros, filmes e
peças de teatro. O thriller político "O que é isso,
companheiro?", que estréia em 1° de maio, é o mais recente
exemplo de reminiscência de guerrilha transformada em ficção.
Livremente inspirado no livro homônimo do hoje deputado federal Fernando
Gabeira, no qual relata o seu envolvimento com a luta armada, o filme de
Bruno Barreto volta a cutucar feridas que, pelo menos para aqueles que as
sentiram na carne, estão longe de cicatrizar. E o processo de
externá-las funciona, em alguns casos, como terapia.
- Apesar de ter sido preso, das torturas que sofri e do tiro que
debilitou definitivamente o meu fígado, a sensação de
escrever "O que é isso, companheiro?" foi uma coisa até prazerosa.
No meu caso, o livro era uma espécie de ajuste de contas com aquele
período - diz Gabeira, que foi integrante do Movimento
Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), organização paramilitar
que seqüestrou o embaixador americano Charles Elbrick em 1969,
episódio retratado no filme de Barreto. - Eu estava voltando para
o Brasil e senti como se estivesse me despedindo do passado. Eu queria
começar uma vida nova.
Nem todos os ex-militantes conseguiram trabalhar o tema da tortura
sem traumas. A jornalista e cineasta Lúcia Murat, por exemplo, levou
quase dez anos para dar sua visão no filme "Que bom te ver viva".
Misto de documentário e ficção, o filme alinhava depoimentos
de oito ex-presas políticas com falas de uma personagem fictícia
e alter ego da diretora, interpretada por Irene Ravache.
Agente do MR-8, Lúcia foi presa em 1971 e torturada nos dois
primeiros meses dos três anos e meio que passou na prisão. "Que
bom te ver viva" é o resultado de sete anos de
psicanálise.
- Nos primeiros anos da análise eu passava quase o tempo todo
da sessão chorando - conta Lúcia. - O filme começa com
uma frase do psicanalista Bruno Betelheim, que diz que "a psicanálise
explica porque você enlouquece, mas não porque você
sobrevive". É quase uma afirmação e uma negação
do que eu vivi.
A guerrilha, suas conquistas e derrotas, são uma página
virada na vida do escritor e poeta Alex Polari. O hoje presidente da
associação de moradores de Céu do Mapiá, uma
comunidade que nasceu há 20 anos em torno da cultura do Santo Daime,
eternizou suas experiências na clandestinidade numa série de
sofridos poemas, publicados em 1979 sob o título de "Inventário
de cicatrizes".
O livro foi escrito ao longo do último dos oitos anos de
prisão aos quais fora condenado, acusado de pertencer à Vanguarda
Popular Revolucionária e participar dos seqüestros de dois
embaixadores estrangeiros.
- Acredito que o livro ajudou a dar um sentido a uma vida, foi uma
espécie de catarse - lembra Polari, que posteriormente escreveu um
romance inspirado na guerrilha, "Camarim de prisioneiro". - Os poemas surgiram
da necessidade de recuperar uma experiência que beirou uma
situação- limite, de vida ou de morte.
Polari não se arrepende da militância, mas acredita
que a guerrilha foi apenas uma etapa de um processo de evolução
espiritual:
- Num primeiro momento, escrever os poemas teve um lado doloroso,
porque mexia diretamente com torturas, os amigos que desaparecem. Mas já
não sinto esse peso. Minha vida tomou um caminho espiritual, tenho
outra compreensão do mundo. Hoje estou mais tranqüilo.
Alfredo Sirkis participou como militante da Vanguarda Popular
Revolucionária dos seqüestros dos embaixadores alemão
e suíço, mas conseguiu não ser preso, fugindo para um
exílio de sete anos. Ao voltar, lançou "Os carbonários",
um best-seller cuja avaliação da guerrilha Sirkis, hoje militante
do Partido Verde, não mudou.
- Achávamos que estávamos fazendo uma revolução
socialista, quando estávamos participando de uma resistência
contra um regime autoritário - diz ele. - Como resistência à
guerrilha é válida, mas regimes que se instauram pela
violência tendem a ser ditatoriais.
O jornalista Álvaro Caldas já transformou suas
experiências em relato e ficção. O segundo caso, "Balé
da utopia", saiu no ano passado. Já "Tirando o capuz", de 1980,
reconstituiu seus três anos de militância no Partido Comunista
Brasileiro Revolucionário e os outros três em que passou preso
e foi torturado durante 60 dias no Doi-Codi.
- A tortura é uma negociação em que a dor é
uma aliada de quem está torturando - diz ele, preso depois de um colega
ter dito seu nome numa sessão de tortura. - O que se podia fazer era
tentar salvar o mais importante, mas não dava para segurar tudo. Nós
éramos muito rigorosos ao julgar como traidor quem falava alguma coisa
sob tortura. Não há ideologia na tortura.
Álvaro acredita que o momento é de reavaliação
do período, o que provoca nele um temor:
- A discussão não pode ser despolitizada, não
podem nos transformar em garotos porra-louca que não fomos. Era um
momento histórico específico. Erramos muito, mas toda paixão
é cheia de erros. E, pelo menos, tínhamos uma esperança
de transformação do mundo, enquanto hoje faltam utopias aos
jovens.
A preocupação do historiador Daniel Aarão Reis,
dirigente do MR-8 na época do seqüestro e autor da tese "A
revolução faltou ao encontro", publicada em 1991, é
que a reavaliação atual reforce uma idéia predominante
no país.
- Os livros de Gabeira ("O que é isso, companheiro?") e Zuenir
Ventura ("1968: O ano que não terminou") ganharam popularidade não
só porque eles escrevem bem, mas também por recuperar o passado
de maneira suave, bem-humorada e conciliadora com a ditadura. O filme do
Bruno Barreto vai além e absolve a ditadura, não por apresentar
um torturador com conflitos, mas por mostrar guerrilheiros sem conflitos,
simplórios.
Daniel, que foi trocado pelo embaixador alemão em 70, e pôde
se exilar, não pôs relatos pessoais em seu livro, optando pela
análise da época. Para ele, a guerrilha não venceu o
regime por não ter o apoio da sociedade:
- Nós estávamos isolados. Senão, a ditadura
teria sido escorraçada. O que eu condeno é a
conciliação com a ditadura. É preciso refletir de maneira
crítica sobre ela, pensar o porquê de a sociedade ter dado apoio
a ela. Se não for assim, virá um dia outra ditadura, porque
temos uma longa tradição autoritária.
O teatro ainda não entrou na esteira atual de
reavaliação. Fez isso em 1983, com "A lira dos 20 anos", peça
de Paulo César Coutinho (já morto), e em 1985, com "A nossa
voz", de Luiz Maria Lima, que tinha a tortura como tema. João das
Neves, diretor da peça e autor de um texto sobre os anos de chumbo
("A pandorga e a lei"), acredita que o teatro virá a tratar novamente
do assunto:
- A tortura foi um problema que vivemos no regime militar, mas que
também existe no regime democrático, contra minorias e pobres.
O teatro certamente fará uma reflexão sobre isso.
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