O diretor
Bruno
Barreto faz questão de dizer que
O
que é isso, companheiro?, em cartaz desde ontem no Rio, não
é um filme de "mocinho e bandido". Se o objetivo era lançar
uma visão distanciada, apolítica e pretensamente
não-maniqueísta de uma época que era exatamente o
contrário de tudo isso, o filme é apenas acertos. O que é
isso, companheiro?, ao contrário do livro homônimo em que se
inspirou, de Fernando Gabeira, não é uma revisão
crítica do período (o próprio livro foi escrito dez
anos depois do seqüestro do embaixador americano durante a ditadura
militar, com fins políticos), mas uma dramatização de
dilemas humanos e particulares que, por acaso, estão submersos em
determinado contexto: o Brasil do fim da década de 60, submetido a
um duro regime militar.
O primeiro ganho desta opção é a
possibilidade de comunicação imediata com a juventude que não
conhece o peso de uma militância política. Segundo o próprio
diretor, um filme com todo aquele linguajar seria insuportável de
se ver nos anos 90. Mas essa pretendida humanização dos personagens
se mostra, concretamente, bastante relativa. Se o torturador (Marco Ricca)
surge cheio de conflitos, e o embaixador (Alan Arkin) aparece sentado na
privada, humilhado, protagonizando uma cena de grande impacto, existe no
roteiro uma forma de maniqueísmo bem mais sutil.
O personagem inspirado em Gabeira é visivelmente melhorado,
de forma a se tornar objeto de identificação do público.
No núcleo dramático dos seqüestradores, sobra um tanto
mais de vilania para o personagem stalinista da história, Jonas (o
excelente Matheus Nachtergaele, revelado pela peça O livro de Jó),
que personifica as mazelas da turma e sabota a participação
do herói Fernando, codinome Paulo (Pedro Cardoso).
É dessa forma que a produção cai numa
armadilha muito freqüente na dramaturgia contemporânea: a
suposição de que um filme não pode ser político
sem ser maniqueísta, de que os personagens não podem discutir
idéias sem serem chatos - um preconceito que Terra e liberdade, de
Ken Loach, só para citar um exemplo, já provou ser
insustentável. Nesse sentido, o filme é um tanto esquivo por
não enfrentar de frente o Brasil do período.
Tudo o que ganha em comunicação, O que é
isso, companheiro? corre o risco de perder em peso dramático. Não
perde totalmente, é verdade. Só fica meio capenga. A ditadura
está demasiado ausente da história. Onde está a
motivação política daqueles jovens? A decisão
de pegar em armas pelo país surge na tela esvaziada, sem ideologia,
quase como um ato irresponsável de garotos mimados - que não
sabiam sequer cozinhar e, no cativeiro do seqüestro, só comiam
junk food.
Mas é bom ficar claro também que, dentro da
opção que o diretor fez, os acertos são imensos, compensando
esse caminho visivelmente mais fácil do roteiro. Bruno Barreto imprime
uma direção bastante objetiva, que vai direto ao ponto, e extrai
momentos de real dramaticidade do conflito do embaixador e seus
seqüestradores. Só exagera no desespero da embaixatriz, que o
aguarda em casa.
Também é um acerto apostar em momentos de humor,
e a escolha de atores habituados com a comédia só faz corroborar
essa vontade. O ritmo eficiente vai crescendo até a libertação
do embaixador, e o suspense se concentra, a partir de certo ponto, não
na libertação da vítima, mas em como ele será
libertado.
O desfecho, quase épico, culmina com o espocar de fogos
de um clássico no Maracanã, numa cena de composição
perfeita. O que é isso, companheiro? traz, enfim, uma história
boa demais, valorizada por uma opção estritamente narrativa,
que empurra as idéias para debaixo do tapete. E que nem por isso deixa
de emocionar. (Cotação: **)
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