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Ideologia Sob o Tapete da História-
- Jornal do Brasil - 19 de abril/1997 - Pedro Butcher -
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O diretor Bruno Barreto faz questão de dizer que O que é isso, companheiro?, em cartaz desde ontem no Rio, não é um filme de "mocinho e bandido". Se o objetivo era lançar uma visão distanciada, apolítica e pretensamente não-maniqueísta de uma época que era exatamente o contrário de tudo isso, o filme é apenas acertos. O que é isso, companheiro?, ao contrário do livro homônimo em que se inspirou, de Fernando Gabeira, não é uma revisão crítica do período (o próprio livro foi escrito dez anos depois do seqüestro do embaixador americano durante a ditadura militar, com fins políticos), mas uma dramatização de dilemas humanos e particulares que, por acaso, estão submersos em determinado contexto: o Brasil do fim da década de 60, submetido a um duro regime militar.

O primeiro ganho desta opção é a possibilidade de comunicação imediata com a juventude que não conhece o peso de uma militância política. Segundo o próprio diretor, um filme com todo aquele linguajar seria insuportável de se ver nos anos 90. Mas essa pretendida humanização dos personagens se mostra, concretamente, bastante relativa. Se o torturador (Marco Ricca) surge cheio de conflitos, e o embaixador (Alan Arkin) aparece sentado na privada, humilhado, protagonizando uma cena de grande impacto, existe no roteiro uma forma de maniqueísmo bem mais sutil.

O personagem inspirado em Gabeira é visivelmente melhorado, de forma a se tornar objeto de identificação do público. No núcleo dramático dos seqüestradores, sobra um tanto mais de vilania para o personagem stalinista da história, Jonas (o excelente Matheus Nachtergaele, revelado pela peça O livro de Jó), que personifica as mazelas da turma e sabota a participação do herói Fernando, codinome Paulo (Pedro Cardoso).

É dessa forma que a produção cai numa armadilha muito freqüente na dramaturgia contemporânea: a suposição de que um filme não pode ser político sem ser maniqueísta, de que os personagens não podem discutir idéias sem serem chatos - um preconceito que Terra e liberdade, de Ken Loach, só para citar um exemplo, já provou ser insustentável. Nesse sentido, o filme é um tanto esquivo por não enfrentar de frente o Brasil do período.

Tudo o que ganha em comunicação, O que é isso, companheiro? corre o risco de perder em peso dramático. Não perde totalmente, é verdade. Só fica meio capenga. A ditadura está demasiado ausente da história. Onde está a motivação política daqueles jovens? A decisão de pegar em armas pelo país surge na tela esvaziada, sem ideologia, quase como um ato irresponsável de garotos mimados - que não sabiam sequer cozinhar e, no cativeiro do seqüestro, só comiam junk food.

Mas é bom ficar claro também que, dentro da opção que o diretor fez, os acertos são imensos, compensando esse caminho visivelmente mais fácil do roteiro. Bruno Barreto imprime uma direção bastante objetiva, que vai direto ao ponto, e extrai momentos de real dramaticidade do conflito do embaixador e seus seqüestradores. Só exagera no desespero da embaixatriz, que o aguarda em casa.

Também é um acerto apostar em momentos de humor, e a escolha de atores habituados com a comédia só faz corroborar essa vontade. O ritmo eficiente vai crescendo até a libertação do embaixador, e o suspense se concentra, a partir de certo ponto, não na libertação da vítima, mas em como ele será libertado.

O desfecho, quase épico, culmina com o espocar de fogos de um clássico no Maracanã, numa cena de composição perfeita. O que é isso, companheiro? traz, enfim, uma história boa demais, valorizada por uma opção estritamente narrativa, que empurra as idéias para debaixo do tapete. E que nem por isso deixa de emocionar. (Cotação: **)



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