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QUATRO
DIAS EM
SETEMBRO -
- Jornal do Brasil - 18 de Abril de 1997 - Ernesto Soto- use a barra para descer e ler o artigo |
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O passado bate à porta dos cinemas
brasileiros e reaparece, projetado na tela, em
O
que é isso, companheiro ?, a esperada adaptação
cinematográfica do livro homônimo de Fernando Gabeira, com
direção de
Bruno
Barreto. Com pré-estréia aberta ao público hoje
e lançamento nacional no dia 1° de maio, o filme narra o
seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick, em plena ditadura
militar. Organizado por grupos políticos que pediam como resgate a
libertação de 15 presos políticos, o seqüestro
foi um dos episódios mais polêmicos da história do Brasil:
a luta armada contra a ditadura militar, que teve seu período mais
crítico no fim da década de 60. O linguajar de uma
geração, os óculos de aros espessos usados pelos jovens,
os turbantes da embaixatriz Elvira Elbrick - enfim, toda uma época
é reconstituída no filme, que retrata, também, o papel
fundamental do JB. Veículo que. resistiu o quanto pôde às
pressões da ditadura, o jornal serviu de receptáculo a todas
as informações que seriam divulgadas pelos seqüestradores.
O JB reconstitui o passo a passo do seqüestro e das negociações,
que logicamente aparecem romanceados no filme, e relembra, pela voz dos
jornalistas que faziam pane da redação na época, a
tensão daqueles quatro dias em setembro de 1969. A seguir, um relato
daqueles quatro tensos dias de setembro.
Rio de Janeiro. Quinta-feira 4 de setembro de 1969. Apesar de Inverno, o sol brilha forte num céu sem nuvens e a cidade enfrenta um dia de muito calor. No início da rude, um imenso Cadillac preto, chapa diplomática CD-3, deixa lentamente o imponente palacete da Rua São Clemente, que serve como residência do embaixador dos Estados Unidos. Naquele tempo, apesar de Brasília ser a capital oficial, o Rio continuava sendo a capital de fato do pais e vivia dias turbulentos. O presidente Costa e Silva havia sofrido um derrame cerebral e agonizava no Palácio das Laranjeiras. Às 13h53, o Cadillac entrou na Rua Marques, em Botafogo, a caminho do consulado-geral no Centro da cidade. Em frente ao número 15, um Volks vermelho subitamente bloqueou a sua passagem. Três jovens armados correram para o cano diplomático. Surpreendentemente os vidros estavam abertos, as portas não eram bloqueadas e nenhuma escolta ou guarda-costas protegia o homem que estava no banco traseiro: Charles Burke Elbrick, então com 61 anos, embaixador dos Estados Unidos no Brasil. Um dos jovens ocupou rapidamente o lugar do motorista Custódio Abel da Silva, que sob a mira de uma arma se afastou para a direita murmurando: "I am not American". Numa rua sem saída no Humaitá, Elbrick foi retirado do carro e colocado numa Kombi verde-abacate- Assustado, o embaixador fez um gesto de resistência e acabou recebendo uma coronhada na testa. A Kombi se afastou rapidamente. Ao se ver sozinho, Abel saiu em desabalada correria em busca de um telefone. Finalmente, às 14h05 ele consegue passar a terrível mensagem para seus chefes: "Seqüestraram o embaixador'. A partir daí a bola de neve começou a rolar montanha abaixo com uma velocidade impressionante. O governo americano foi imediatamente informado e ficou sabendo do seqüestro antes mesmo dos militares brasileiros. Depois de falar com Washington, o encarregado de negócios William Belton, segundo na hierarquia da Embaixada, comunicou o seqüestro ao minis. m das Relações Exteriores do Brasil, Magalhães Pinto. São 141130. Velha raposa mineira o experiente Magalhães Pinto respirou fundo, meditou um pouco e se preparou para uma das mais graves e tensas crises da história do país e cujo desenlace ninguém podia prever. Só temer. Os três ministros militares, Augusto Rademacker (Marinha), Aurélio de Lyra Tavares (Exército) e Márcio de Souza Melo foram então avisados. A diplomacia brasileira mergulhou numa intensa atividade em meio a um clima de muita angústia e tensão. Todas as saídas do Rio foram bloqueadas. O Cadillac negro permaneceu horas cercado por policiais que não deixavam ninguém se aproximar. Somente às 17 horas chegaram os peritos. Um manifesto e uma mensagem dos seqüestradores foram então encontrados. A mensagem assinada pela Aliança Libertadora Nacional (ALN e o Movimento Revolucionário 8 de Outubro MR-8)- exigia a leitura do manifesto por uma rede nacional e a libertação de 15 presas políticos que deveriam ser levados para o México. Às 19h, a trilhares de quilômetros do Rio de Janeiro, o destino da crise deflagrado pelo seqüestro começou a ser delineado. Em San Fernando, na Califórnia, num encontro com o secretário de Estado, William Rogers, o presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, o homem mais poderoso do planeta decidiu que queria o seu embaixador de volta. Custasse o que custasse. Às 21h30 começou uma reunião decisiva no Palácio das Laranjeiras, onde Costa e Silva agonizava -num dos quartos. Dela participaram os ministros militares, Magalhães Pinto e. William Belton. Os americanos jogaram duro e deixaram bem claro a sua exigência: queriam Elbrick de volta, são e salvo. O governo brasileiro que se virasse e tomasse todas as providência necessárias. O mais rápido possível.
Sexta-feira dia 5. As estações de rádio e televisão entram em cadeia para atender à primeira exigência dos seqüestradores. O duro manifesto é lido pelo locutor Alberto Cury, da Agência Nacional, e termina com a ameaça: "Agora é olho por olho, dente por dente". Uma denúncia levou agentes do Cenimar, o serviço secreto da Marinha, ao casarão de número 1.026 da Rua Barão de Petrópolis, em Santa Teresa. Era lá que estava guardado o embaixador. Neste dia foram entregues pelos seqüestradores duas mensagens de Elbrick destinadas à sua mulher Elvira. Anexo à segunda mensagem foi divulgada a eclética relação dos 15 presas políticos que deveriam ser libertados.
Sábado, dia 6. A tensão não pára de subir. Às 9hs, todo o governo se reúne novamente na Laranjeiras. A grande maioria dos presos é trazida para o Rio e um poderoso esquema de segurança isola completamente a Base Aérea do Galeão. Às 17h30 o avião decola rumo a Recife para apanhar dois presos: Gregório Bezerra e Mário Roberto Zaconato. Domingo, dia 7. Às 15h30, o Hércules brasileiro aterrissou no aeroporto internacional da cidade do México. Os presos desembarcaram algemados e foram recebidos por uma multidão. Às 18hs, as televisões exibiram as radiofotos dos quinze livres no México. Às 18h10, Elbrick foi libertado nas imediações do Largo da Segunda-Feira. Apesar de seguido por irados militares da Marinha numa camionete, todos os seqüestradores conseguem escapar no meio da multidão que deixava o Maracanã no fim do jogo Flamengo e Bangu. Mas eles permaneceriam livres por muito tempo.
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