Humberto Mauro, 100 anos.
"Não sou literato. Sou poeta do cinema. E o cinema nada mais
é do que cachoeira. Deve ter dinamismo, beleza, continuidade
eterna." |
Filho de Caetano Mauro, imigrante italiano, e de Tereza Duarte, mineira culta e poliglota, Humberto Duarte Mauro nasceu no
dia 30 de abril de 1897, numa fazenda de Volta Grande, perto de Cataguases, na Zona da Mata do Estado de Minas Gerais,
dois anos depois da histórica sessão cinematográfica promovida pelos irmãos Auguste e Louis Lumière, em Paris, na França.
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| Humberto Mauro na década de 30 |
Desde cedo demonstrou habilidade manual e especial interesse pela música e por mecânica Mauro "tocava" violino e
bandolim e fez um curso de eletromecânica por correspondência. Seu primeiro empreendimento foi uma oficina, responsável
pela instalação da eletricidade em muitas fazendas na Zona da Mata, e também construiu o primeiro aparelho de recepção
radiofônica da cidade onde morava. Vem dessa época a paixão pelo radioamadorismo, que conservou para sempre.
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| Humberto Mauro em Volta Grande, MG |
Em 1916 mudou-se para o Rio de Janeiro, com o objetivo de trabalhar numa oficina de enrolamento de motores e
transformadores. Paralelamente, foi atleta do Vila Isabel, time de futebol onde foi goleiro, jogador de xadrez e lutador de
boxe e luta romana.
Em 1918, depois de trabalhar na Ligth e no Lloyd Brasileiro, ainda no Rio de Janeiro, retornou a Cataguases, e, em fevereiro
de 1920, casou-se com Dona Bebê (Maria Vilela de Almeida), sua única esposa durante toda a vida.
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| Comemoração das bodas de ouro do casal (1970) |
Mauro já tinha 26 anos quando se interessou por cinema. Gostava dos seriados e dos filmes de aventura e imaginava que
fazer cinema não era algo assim tão difícil. Nessa época, o Brasil vivia, simultaneamente, a expansão do mercado
cinematográfico e a repercussão da Semana de Arte de 22, que em Cataguases se manifestava através das páginas da revista
Verde. Para o crítico e pesquisador Paulo Emílio Sales Gomes, Mauro "se pôs a fazer cinema não porque fosse
intelectualmente moderno, pois não o era, mas porque possuía o gosto e o talento da mecânica. Inicialmente, foi o lado
mecânico da máquina de filmar que o conquistou". E completa: "o que permitiu a Mauro superar-se intelectualmente foi a
alegria criadora do manejo de uma máquina de filmar".
A partir da esquerda: Alex Viany, David Neves, Humberto Mauro, Paulo Emílio e D. Bebê | ![]() |
Assim, em 1925, Mauro e o fotógrafo italiano Pedro Comello realizaram em Cataguases o primeiro filme, Valadião, o
Cratera. Depois, apoiados pelo comerciante Homero Cortes Domingues, iniciaram a produção de Os três irmãos, que não
chegou a ser concluído. Com a adesão de Agenor Cortes de Barros, a equipe formalizou a criação da empresa produtora
Phebo Sul America Film.
O primeiro filme da empresa foi Na primavera da vida, dirigido por Mauro em 1926. Com ele surgiu a primeira musa do
cinema brasileiro, Eva Nil, filha de Pedro Comello, que abandonou a carreira artística rapidamente.
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| Na primavera da vida | Eva Nil |
O filme seguinte, Thesouro perdido, foi um dos preferidos de Mauro. No elenco, além da sua mulher que trabalhou com o
pseudônimo de Lola Lys, em sua única incursão cinematográfica, atuou seu irmão Chiquinho, no papel de galã, e o próprio
cineasta, interpretando o vilão. Foi nessa ocasião que Comello deixou de participar da equipe e Mauro, juntamente com os
outros dois sócios, decidiram transformar a produtora em sociedade anônima para captar recursos.
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| Cartaz de Thesouro perdido |
Mauro seguiu filmando. Em 1929 lançou Braza dormida, depois o curta-metragem Symphonia de Cataguases, e Sangue
mineiro, longa-metragem concluído com o auxílio da atriz e produtora Carmen Santos, que estreou em janeiro de 1930.
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| Luiz Sorôa e Nita Ney em Braza Dormida | Carmen Santos durante intervalo de filmagem | Luiz Sorôa e Carmen Santos em Sangue Mineiro |
Instalado no Rio de Janeiro, foi trabalhar na empresa cinematográfica Cinédia, do amigo Adhemar Gonzaga. Em 1930,
realizou Lábios sem beijos, e, no ano seguinte, fotografou o longa-metragem dirigido por Octávio Gabus Mendes, Mulher.
Depois vieram Ganga bruta, com música de Radamés Gnatalli e do próprio cineasta e a participação da conhecida atriz
Déa Selva; Voz do Carnaval inspirado numa história de Joracy Camargo, o filme lançou Carmem Miranda no cinema e foi
o último trabalho de Mauro para a Cinédia.
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| Humberto Mauro e equipe da Cinédia | Déa Selva em Ganga bruta |
Depois de ter enfrentado dificuldades financeiras por causa das poucas oportunidades de trabalho oferecidas pelo mercado
cinematográfico, Mauro aceitou dirigir alguns documentários para Carmen Santos. Entre 1934 e 1935, filmou As sete
maravilhas do Rio de Janeiro, Inauguração da Sétima Feira Internacional de Amostras da Cidade do Rio de Janeiro,
General Osório e Pedro II.
![]() | A partir da esquerda: Reginaldo Calmon, Manoel Ribeiro, Carmen Santos e Humberto Mauro |
A partir de então, Mauro nunca mais parou de filmar. Fosse ficção ou documentário. Em 1935, com a colaboração de
Henrique Pongetti, realizou Favela dos meus amores, com trilha musical de Ary Barroso, Custódio Mesquita, Sílvio Caldas
e Orestes Barbosa. Cidade mulher, de 1936, com enredo de Pongetti, contou com a única trilha sonora escrita por Noel
Rosa para o cinema. Também no mesmo ano, Mauro fotografou o filme Grito da mocidade, de Raoul Roulien.
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| A partir da esquerda: Antonieta Marzulo, Carmen Santos e Rodolfo Mayer em Favela dos meus amores | A partir da esquerda: Mario Salaberry, Carmen Santos, Sarah Nobre e Jayme Costa em Cidade mulher |
Ainda em 1936, Humberto Mauro ingressou no Instituto Nacional do Cinema Educativo INCE, fundado por Edgar
Roquette-Pinto, onde realizou mais de 300 filmes documentários.
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| Edgar Roquette-Pinto |
Nas raras interrupções em suas tarefas no INCE, Mauro filmou os longas-metragens de ficção O descobrimento do Brasil,
em 1937 um convite do Instituto do Cacau da Bahia; Argila, com elenco encabeçado por Carmen Santos, em 1940; e O
canto da saudade, seu último longa-metragem, em 1952.
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| Celso Guimarães em Argila | Cena de O canto da saudade |
Depois de se aposentar no INCE, realizou entre os anos de 1952 e 1967, dezenas de curtas-metragens. Mas sua
contribuição ao cinema brasileiro não se esgota aí. Mauro foi ator em Memória de Helena (David Neves, 1969); autor dos
diálogos em tupi-guarani de Como era gostoso o meu francês (Nélson Pereira dos Santos, 1971) e Anchieta, José do
Brasil (Paulo Cesar Saraceni, 1978); e colaborou, ainda, no argumento e no roteiro de A noiva da cidade (Alex Viany,
1979).
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| A partir da esquerda: Jorge Gomes , Alex Viany, H. Mauro e Elke Maravilha | Rosa Maria Penna em Memória de Helena | Humberto Mauro e David Neves, diretor de Memória de Helena |
Carro de bois, documentário rodado em Volta Grande, Minas Gerais, em 1974, e produzido pelo Instituto Nacional do
Cinema, foi sua última realização cinematográfica. Humberto Mauro faleceu no dia 5 de novembro de 1983, na cidade onde
nasceu, e coincidentemente, na data em que se comemora o dia Nacional da Cultura, do Cinema Brasileiro e do
Radioamador.
Humberto Mauro durante a filmagem de Carro de bois, em Volta Grande, MG | ![]() |
"Eu morro, você morre. O cinema brasileiro, não; vai embora." |
O descobrimento do Brasil, o filme (*)
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| Cena de O descobrimento do Brasil |
O início do projeto O descobrimento do Brasil não tinha nada a ver com Humberto Mauro. Inácio Tosta, presidente do Instituto do Cacau da Bahia, foi seduzido pela idéia de patrocinar uma reconstituição histórica sobre o descobrimento, e o filme chegou a ser iniciado com direção de Alberto Campiglia e fotografia de Alberto Botelho. Mas o tempo se passava, gastava-se dinheiro e os trabalhos não andavam. Segundo Humberto, quando assumiu a direção do filme, apenas os atores estavam escolhidos e muito pouco havia sido filmado.
Ao aceitar dirigir O descobrimento do Brasil, Humberto foi aos poucos mudando praticamente tudo, salvo os atores. A caravela montada sobre flutuadores na Baía da Guanabara e as filmagens em interiores, foram transferidas para os estúdios de Carmen Santos e alguns outros montados na Feira de Amostras. O roteiro foi adpatado cinematograficamente, tendo como ponto de partida a Carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei Dom Manuel, o Venturoso, mas o diretor-roteirista fez pesquisas complementares.
Embora em sua essência o filme seja a visualização do descobrimento tal como visto pelos manuais escolares da História do Brasil, Humberto fez questão de deixar claro que não foi por "casualidade" que a frota de Pedro Álvares Cabral chegou ao novo continente. Enriqueceu, com detalhes antropológicos colhidos nos filmes realizados entre os índios pelas equipes de Cândido Rondon, o relacionamento dos descobridores com o povo indígena.
Completadas as filmagens e uma primeira montagem, Humberto mostrou os copiões para Villa-Lobos, que concordou em fazer a trilha musical. As gravações foram realizadas no estúdio de som de Fausto Muniz, e Villa-Lobos participou ativamente na pesquisa de ruídos para a trilha sonora: o som do mar, em alguns momentos, foi obtido esfregando-se papel sobre uma superfície áspera, e a queda da enorme maçaranduba que seria transformada na cruz da Primeira Missa, foi acompanhada por um som combinado de feijões caindo nas costas de uma guitarra e folhas-de-flandres sendo balançadas.
O lançamento de O descobrimento do Brasil foi cercado de publicidade nos jornais, exibições para autoridades, etc, mas o filme não alcançou propriamente um grande sucesso, nem no Brasil nem em Portugal, onde foi exibido pouco depois. Apesar da relevância do episódio na história dos dois países, não havia propriamente um enredo que atraísse o público, e os poucos diálogos do filme eram, na maior parte, em tupi.
As matérias publicadas na época tinham sobretudo um tom patriótico e poucas analisavam os valores cinematográficos apresentados por Humberto: a atmosfera mística em que se desenrola o contato com a Terra Nova, a procissão da cruz, a primeira missa, a alternância desses episódios mais sérios com cenas mais leves, como a dança coletiva dos índios com os acrobatas portugueses.
A força do filme era tal, porém, que, numa crítica publicada na época, Graciliano Ramos elogiava as "admiráveis cenas" de O descobrimento do Brasil ao mesmo tempo em que se espantava de o contato entre os indígenas e os portugueses se processar no filme com a maior cordialidade, quando a História posterior demonstrou que os exploradores aqui tinham aportado para "escravizar e assassinar o indígena".
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| Humberto Mauro |
Fontes consultadas:
1. Catálogo da Mostra Humberto Mauro, julho de 1984.
2. "A morte do pai do cinema brasileiro." Jornal do Brasil, RJ, 07 nov. 1983. p 1. caderno B.
3. "O último dos clássicos." Estado de Minas, Belo Horizonte, 08 nov. 1983. p 6.
4. "Canto da saudade a Humberto Mauro." Estado de Minas, Belo Horizonte, 08 nov. 1983.
5. Correio Braziliense, Brasília, DF, 08 nov. 1983.
6. (*) Texto transcrito do catálogo da Mostra Humberto Mauro, julho de 1984.
Ficha técnica:
Texto e seleção de imagens - Jorge Edson Garcia
Digitalização de imagens - Nelson Lopes Filho
Montagem da página - Giangiacomo Ponzo Neto e João Carlos Levy Argel