FESTIVAL DE BRASÍLIA 99




O QUE DIZEM OS JORNAIS IMPRESSOS
SOBRE A CONFUSÃO FINAL
DE UM FESTIVAL QUE TINHA TUDO
PARA SER UM MARCO HISTÓRICO ?


(não, não é um reprise do ano de 1998)



Aconteceu de quase tudo no XXXII Festival de Brasília. E tudo que
aconteceu merece uma séria reflexão da classe. Que classe?
Com que classe estamos tratando...?

Vejam o que disseram os jornais, um entre os mais amigos do Cinema 
Brasileiro, O GLOBO (patrocinador do RioCine por anos) e um dos 
menos amigos, FOLHA DE S.PAULO, e também a impressão do mais
importante jornal de brasília, O CORREIO BRAZILIENSE:


-------------REPRODUÇÃO O GLOBO 02/12/99---------------

Fim patético no Festival de Brasília 
Eduardo Souza Lima 

BRASÍLIA 



Se no ano passado coube ao júri estragar a festa de encerramento do Festival
de Brasília, neste a própria organização tomou para si o privilégio. Eduardo
Coutinho, que levou o Candango de melhor filme pelo estupendo "Santo forte",
deveria ser, com todos os méritos, a grande estrela da noite de terça-feira
no Teatro Nacional. O cineasta, porém, terminou como mero coadjuvante. 

O circo vinha se armando desde a sexta-feira passada, quando o jurado Murilo
Salles caiu de joelhos diante de um dos competidores, Júlio Bressane, dando
início a uma série de intrigas e baixarias. O prêmio de R$ 50 mil oferecido
ao melhor longa-metragem fez crescer os olhos de muita gente durante o
festival. 

Esperava-se que o clima da premiação fosse tenso. Mas ninguém imaginava que
a noite pudesse terminar de forma tão patética. A secretária de Cultura do
Distrito Federal, Maria Luiza Dornas, debulhava-se em lágrimas. 

O festival de desrespeitos começou logo na entrega do primeiro prêmio, o da
crítica. O vencedor, Eduardo Coutinho, nem havia chegado à platéia quando o
seu nome foi anunciado. E os atores que faziam as vezes de mestres de
cerimônia simplesmente ignoraram o texto elaborado pelos jornalistas para
justificar a premiação. 

Contratado para tocar o espetáculo, Néio Lúcio, diretor de teatro local,
apontou para si e para a pantomima de inspiração hollywoodiana que armou
todos os holofotes. Criou o seu próprio estapafúrdio roteiro de premiação,
contrariando as recomendações do júri e o bom senso, e cortou todos os
textos de apresentação. 

Lá para as tantas, Eduardo Coutinho subiu ao palco para receber o seu
segundo prêmio da noite e, no palco, atônito, perguntou: 

- Mas que prêmio é esse mesmo, hein? 

Néio Lúcio decidiu por conta própria agrupar os prêmios técnicos das
categorias longa e curta-metragem. O primeiro resultado de sua estratégia
foi o anticlímax: o prêmio de melhor curta foi anunciado antes do de
fotografia, só para dar um exemplo. 

Os apresentadores deram a sua contribuição com o seu total despreparo e
desrespeitoso deboche. O júri decidiu premiar dois roteiros de curta, "Cão
guia" e "Tepê". Quando os vencedores Gustavo Acioli e Tarcila Messias
subiram ao palco, foi entregue a eles apenas um Candango, que ficou de
mãozinhas dadas entre os dois. 

- É um prêmio dividido - tentava se justificar a apalermada apresentadora,
debaixo de uma saraivada de vaias. 

- Dividido está o seu cérebro! - berrou alguém da platéia. 

A prepotência de Néio Lúcio e as trapalhadas do casal de apresentadores
levaram a platéia e os jurados - que, por sinal, fizeram escolhas quase
sempre irretocáveis - ao destempero. O cineasta Claudio Mac Dowell, membro
do júri, correu aos bastidores para tentar consertar as coisas. Era tarde. 

- A zona estava irremediável - disse depois o jurado. 

Durante a discussão, Cláudio e Néio quase saíram no braço. A situação ficou
insustentável a tal ponto que a cerimônia precisou ser interrompida por
quase meia hora. De nada adiantou: mal recomeçou, recomeçaram também os
equívocos. Esqueceram até de entregar o prêmio de melhor roteiro para
Eduardo Coutinho. 

- Isso é uma palhaçada! Quiseram inventar a roda triangular! - berrava
inconformado e encolerizado o ator José de Abreu. 

- Tiraram o foco das verdadeiras estrelas da festa, que eram os cineastas -
dizia o secretário do Audiovisual, José Álvaro Moisés. 

À medida em que eram conhecidos os premiados, subia a temperatura no Teatro
Nacional. Se por um lado Júlio Bressane, que ganhou o merecido prêmio de
melhor direção por "São Jerônimo", selava a paz com Eduardo Coutinho com um
afetuoso abraço, depois de dias de clima tenso, Luiz Alberto Pereira,
diretor de "Hans Staden" - um ótimo filme, diga-se - outro favorito,
personificava a falta de espírito esportivo e de classe - nos dois sentidos
- e chegou a jogar um Candango no lixo. 




Com elegância, Coutinho agradeceu o prêmio de melhor filme pedindo união: 



- Vamos parar com as divisões numa classe que já é classicamente dividida. 

- É preciso acabar com esses embates ideológicos que só põem os cineastas um
contra os outros - disse Andrucha Waddington, de "Gêmeas", vencedor do
prêmio do júri popular e de atriz, para Fernanda Torres. - Tem espaço para
todo mundo. 

O duro é constatar que este tipo de vício está tão entranhado na classe
cinematográfica que já atinge até os novatos: André Luís Cunha, produtor do
curta "Tepê", teve um faniquito ridículo e indesculpável; Claudio Assis,
diretor de "Texas Hotel", ameaçava agredir jornalistas e membros do júri.
Pena que um festival, que começou tão bem e que tinha tudo para entrar para
a História, tenha conseguido isso por vias tortas. 

http://www.oglobo.com.br/diversao/ARTE80.htm


--------------------/REPRODUÇÃO----------------------


               

-----------------REPRODUÇÃO DA FOLHA 30/11/99--------
       
                  São Paulo, Terça-feira, 30 de Novembro de 1999 


            CINEMA FESTIVAL DE BRASÍLIA 
            Mostra prova ter mais filmes do que
            cinema

            INÁCIO ARAUJO
            enviado especial a Brasília 

            "Hans Staden", de Luiz Alberto Pereira, resume uma série de
            virtudes e defeitos do cinema brasileiro atual, que têm sido
            suscitados de maneira mais aguda pelo 32º Festival de Brasília.
            Na coluna das virtudes genéricas, inscreva-se a solução de
            problemas de que se reclamava: som, fotografia, cenografia etc.
            Entre as pessoais, assinale-se o amadurecimento do diretor.
            Temia-se que a aventura do alemão capturado pelos índios
            tupinambás no século 16 fosse tratado como piada antropofágica
            -o que em definitivo não acontece.
            No entanto, este filme, que se apresenta antes de mais nada como
            um espetáculo e uma aventura, foi recebido glacialmente pelo
            público no sábado.
            Talvez isso se deva a alguns defeitos também evidentes. O
            primeiro, central, diz respeito à falta de um ponto de vista que o
            oriente. Ou seja: do que trata, efetivamente? De um homem
            retirado de sua cultura e que, mesmo adotado por outra, precisa
            voltar à civilização? Do conflito entre duas culturas? Da luta entre
            o deus dos portugueses e os deuses índios?
            Entre as linhas possíveis, o filme hesita e não se define. É quase
            certo que dessa imprecisão do olhar decorram os problemas
            adjacentes. O principal deles é que, passado o terço inicial, o
            filme não consegue plantar expectativas, e a narrativa tende à
            monotonia.


            Isso não chega a justificar a recepção fria. O filme, de tema
            ambicioso e difícil, não passa vergonha. Destaquem-se a boa
            atmosfera conseguida e a boa exploração das locações em
            Ubatuba.
            O segundo filme do sábado, "No Coração dos Deuses", de
            Geraldo Moraes, também é problemático, embora tenha um
            ponto de partida também muito interessante: reencontrar a
            aventura dos bandeirantes num filme infantil. Infelizmente, a
            intenção perde-se numa série de desvãos: desde a espacialidade
            imprecisa até um roteiro que, a exemplo de "Hans Staden", não
            chega a criar um crescendo que prenda a atenção.
            A primeira tendência é apontar o roteiro como problema.
            Pensando melhor, vê-se que é a narrativa, e da ausência de uma
            concepção narrativa mais sólida derivam os equívocos de roteiro.
            Os dois filmes do domingo foram bem inferiores aos do sábado.
            "Um Certo Dorival Caymmi", de Aluisio Didier, é burocrático, um
            desperdício de um personagem carismático e interessante.
            "Milagre em Juazeiro", de Wolney Oliveira, mescla documentário
            e dramatização de fatos ocorridos no fim do século 19, quando
            um suposto milagre (ao receber a hóstia, a boca de uma beata
            começa a sangrar) torna o padre Cícero, pároco de Juazeiro,
            Ceará, centro de uma polêmica teológica. Seria farsa ou milagre?
            No total, o filme tende à dispersão, não apenas pela mistura de
            gêneros. Ora discute-se o milagre, ora postula-se um confronto de
            culturas (as autoridades eclesiásticas não aceitariam a santidade
            de uma analfabeta, meio negra, meio índia), ora acumulam-se
            cenas de romeiros em busca de milagres. Desse caldo variado,
            emerge um olhar populista (na linha "o povo tem sempre razão"),
            antiquado.

            Resumindo: o domingo confirma que há mais filmes do que cinema
            em Brasília neste ano em que o destaque, disparado, até aqui, é o
            "São Jerônimo" de Júlio Bressane.


http://www.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq3011199911.htm


---------------------/REPRODUÇÃO----------------------------------



Festival de Cinema serve para quê?


Esta é uma discussão que precisa ser posta em pauta.


Quando estive no festival de Brasília em 1998, percebi claramente,
como todos pois era óbvio, uma preocupação do Júri em não deixar
determinadas pessoas "saírem de mãos abanando".

No ano passado, criaram um prêmio, que entrou para a História do
Cinema Brasileiro: "Melhor Montagem Antropofágica", para homenagear
especialmente Rogério Sganzerla. Não que o filme de Sganzerla fosse
ruim, muito pelo contrário, mas a falta de critério na premiação,
ou as pressões, ou os acanhamentos diante da possibilidade de não
dar qualquer prêmio para os grandes nomes do cinema, seja o que for,
isso precisa acabar. E não parou por aí, teve prêmio de "Melhor
Letreiro" e foram naquele ano extintos "Melhor Roteiro" e "Melhor 
Fotografia".

Este ano me parece que as pressões não se limitaram aos jurados,
mas se manifestaram publicamente diante da platéia. A competição se
acirrou ora pelo interesse no prêmio em dinheiro, ora pelo interesse 
na credencial para uma boa distribuição que significa o prêmio,
e isso tentou se sobrepor à soberania do Júri, se este a tinha,
pois não conseguiu evitar o que o CORREIO BRAZILIENSE chamou de
verdadeira "bagunça". Claro que não cabe ao Júri a responsabilidade
da organização do evento, caberia a ele quando muito se fazer respeitar,
na ordem de apresentação que estabeleceu para os prêmios. A organização
do Festival é em última instância a responsável. Mas coube em grande
parte AOS CINEASTAS a alimentação do caos com shows de TPM ao vivo.

Some-se a isso a observação sensata de Carlos Reichembach sobre o
adiamento do festival fazendo-o coincidir(e esvaziar) o Festival de Búzios
e o de Vitória. Erro que inaugurava a sequência de outros por vir.

Quem está no comando da organização do evento? O erro do ano passado
não serviu para uma reavaliação e devidas providências?
Interessa à classe tanta desorganização, rusgas e desentendimentos?

Isso está destruindo com a reputação do mais antigo festival 
DO CINEMA BRASILEIRO.


Um Grande Abraço,


Marcos Manhães Marins

----------- REPRODUÇÃO PARCIAL CORREIO BRAZILIENSE ------------------

ÍNTEGRA EM:
http://www.correioweb.com.br/noticias/anteriores/quarta/dois/pagina8.htm

CORREIO BRAZILIENSE

                    Santo Forte vence em festa bagunçada
                    Festival de Brasília termina em cerimônia
                    confusa, que chegou a ser interrompida para
                    discussão 

                    O 32º Festival de  Brasília do Cinema
                    Brasileiro terminou em bagunça. A cerimônia de
                    premiação consagrou Santo Forte, como
                    Melhor Longa, segundo o júri, e As Gêmeas,
                    segundo o público. Mas a festa de entrega dos
                    Candangos foi marcada pela total
                    desorganização da produção, a cargo da Secretaria de
                    Cultura do Distrito Federal. 

                      O caos tomou conta do evento, que aconteceu na Sala
                    Villa-Lobos do Teatro Nacional, previsto para iniciar às
                    20h. A festa começou com uma hora de atraso. E
                    começou ao contrário. A ordem de entrega dos prêmios
                    foi, no mínimo, nada convencional. Em vez de primeiro se
                    entregar os prêmios técnicos (como montagem e
                    trilha-sonora), a produção resolveu abrir a festa premiando
                    as categorias principais entre os curtas-metragens em
                    35mm. O vencedor de Melhor Curta foi o gaúcho Três
                    Minutos. Como diretor, venceu o paraibano Torquato Joel
                    (de Passadouro). 

                      Mas não deu nem para os vencedores comemorarem
                    direito. Gafes, equívocos e confusões marcaram a
                    cerimônia. A inversão da ordem dos anúncios foi vaiada
                    pela platéia que lotou a Villa-Lobos - a festa, a princípio,
                    era aberta apenas para convidados; mas como a sala não
                    encheu, a produção abriu as portas para o público em
                    geral. ''O público não está acostumado com o novo'',
                    argumentou, ao microfone, o apresentador Dimer Monteiro.

                      Representando o júri oficial, o cineasta Cláudio McDowell
                    subiu ao palco para reclamar da inovação no roteiro da
                    premiação - roteiro que ficou a cargo do organizador Néio
                    Lúcio. ''Do jeito que a premiação está se desenrolando, os
                    critérios utilizados pelo júri estão sendo completamente
                    desvirtuados'', reclamou, sob aplausos da platéia.

                      A secretária de Cultura, Maria Luíza Dornas, sempre
                    sorridente, limitou-se a comentar que a confusão ''faz
                    parte do show''. Nisso, o ''show'' ficou parado por 15
                    minutos, na tentativa de se colocar ordem no caos.
                    ''Gente sem expressão está criando a polêmica que o júri
                    não quis criar'', desabafou McDowell.

[...]

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COBERTURA COMPLETA DO FESTIVAL DE BRASÍLIA EM





A quem interessa promover uma confusão destas?  Pensem.

Grande Abraço,

Marcos Manhães Marins
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