O QUE DIZEM OS JORNAIS IMPRESSOS
SOBRE A CONFUSÃO FINAL
DE UM FESTIVAL QUE TINHA TUDO
PARA SER UM MARCO HISTÓRICO ?
CORREIO BRAZILIENSE:
Brasília, 20 de Outubro de 1998
FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO
Premiação antropofágica
Júri do festival provoca polêmica ao deixar de premiar
categorias como roteiro, fotografia e montagem entre os
longas
A entrega da premiação do 31º
Festival de Brasília do Cinema
Brasileiro, na noite do último
domingo, foi marcada pela
polêmica pela criação de cinco
categorias (melhor produção
executiva, colagem
antropofágica, letreiro de
abertura e dois destaques de
interpretação) em detrimento
de outras tradicionais em
festivais de cinema, como
fotografia, roteiro e montagem.
‘‘Sinceramente, estranhei não ter havido premiação para
melhor roteiro, porque o roteiro é a base do filme, assim
como a fotografia’’, afirmou o escritor Marçal Aquino, um
dos roteiristas de Ação Entre Amigos, fita que encerrou,
fora de competição, o festival e foi bastante aplaudida pelo
público de convidados.
Alguns membros do júri oficial, presidido pelo crítico Jean
Claude Bernardet, explicaram depois da premiação a
polêmica decisão, restrita aos longas-metragens. ‘‘Não
posso responder por todos. Também não posso bancar o
santo aqui. A verdade é que fui voto vencido em muitas
questões’’, diz o artista gráfico Rogério Duarte, um dos
jurados.
Ele confirma ter o júri definido o prêmio de melhor
fotografia (para Hugo Kovensky, do filme Kenoma), mas a
organização do festival acabou não divulgando o prêmio e,
conseqüentemente, não premiando o escolhido.
Duarte assume a autoria do prêmio de colagem
antropofágica. ‘‘Colagem tem os mesmos critérios de
montagem. Colagem e montagem são sinônimos. E o
prêmio foi uma homenagem a Oswald de Andrade e
também ao trabalho de Rogério Sganzerla, como
antropófago. Não interessa ficar premiando
categoriazinhas sem expressão’’, declarou o artista.
A criação de novos prêmios, disse Duarte, foi uma
tendência constatada dentro do júri, e acabou provocando
divisão entre os jurados. ‘‘Eu, por exemplo, gostei muito
mais do filme do Paulo Cezar Saraceni (O Viajante). Mais
sério, mais profundo. E briguei pelo filme do Sganzerla
porque sou intelectual e gosto de ver filmes que
satisfazem a minha inteligência, e não apenas que
estimulem minhas glândulas lacrimais.’’
Feliz com sua premiação como melhor produção
executiva, pelo filme A Hora Mágica, de Guilherme de
Almeida Prado, a produtora paulista Sara Silveira ficou
estarrecida com o resultado. ‘‘Nunca vi falar uma coisa
dessas. E não entendo como isso pode acontecer e num
festival com o porte do de Brasília. Isso não existe. Se há
um filme é porque há um roteiro, há montagem. Um filme
não existe sem fotografia. Que loucura!’’
Calmo, o ator Sérgio Mamberti disse que a decisão do
Juri obedecia ao Regulamento do 31º Festival de Brasília
do Cinema Brasileiro. Segundo Mamberti, o regulamento
fixa somente quatro categorias (ator, atriz, filme e diretor)
na categoria longa-metragem em 35 mm. ‘‘As oito
restantes são opcionais’’, disse.
‘‘Particularmente, eu não quero ser tradicionalista, mas
sinto falta da premiação para roteiro e fotografia, que
fazem parte do processo de criação dos filmes. Fugir da
camisa de força, pode até ter seu lado bom, mas acho
que o Festival precisa de um meio termo e tem que
analisar o resultado dessa experiência’’, acrescenta
Mamberti.
A polêmica, entretanto, não ficou só nos novos prêmios.
A indicação de Cláudio Torres, pelo episódio Diabólica,
como melhor diretor intrigou até o próprio cineasta, que
dividiu o comando de Traição com José Henrique Fonseca
e Arthur Fontes. ‘‘O prêmio é dos três porque Traição foi
inscrito como um filme só’’, disse Torres. ‘‘É dos três, não
tem como não ser’’, afirmou Arthur Fontes, que até
titubeou em subir ao palco quando só ouviu o nome do
colega Torres.
Análise da notícia/Mostra ficou aquém da promessa
Sérgio Bazi
Da equipe do Correio
FOLHA DE SÃO PAULO:
São Paulo, terça, 20 de outubro de 1998
FESTIVAL DE BRASÍLIA
Constrangimento tomou conta da cerimônia e categorias
essenciais, como roteiro, não tiveram prêmios
"Amor & Cia.' vence em premiação
confusa
JOSÉ GERALDO COUTO
enviado especial a Brasília
"Amor & Cia.", de Helvécio Ratton, o filme mais convencional da
safra, venceu o 31º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
A premiação, divulgada anteontem à noite numa cerimônia
confusa, foi uma das mais estranhas da história do festival.
Categorias essenciais como fotografia, roteiro e montagem não
tiveram prêmios (veja quadro ao lado). Em contrapartida, foram
contempladas categorias como "melhor abertura", "colagem
antropofágica" e "produção executiva".
Ao final da cerimônia de premiação, a perplexidade tomou conta
do público, da imprensa e dos próprios premiados -a tal ponto
que inviabilizou uma foto coletiva destes últimos no palco, que já
havia sido programada e anunciada previamente.
Durante a cerimônia, predominou o constrangimento, que os
premiados procuravam atenuar como podiam.
O cineasta Claudio Torres -que recebeu o Candango de melhor
diretor pelo episódio "Diabólica", de "Traição"- subiu ao palco
com seu colega Arthur Fontes e disse que o troféu era para os
três diretores do longa (o outro, ausente, é José Henrique
Fonseca), e não só para ele. "Traição' não são três filmes, é um
filme só", disse.
Ao receber seu "prêmio especial do júri" por "O Viajante", Paulo
Cezar Saraceni, sabendo que não ganharia mais nada, ironizou:
"Como diz a canção, não sou de reclamar".
Rogério Sganzerla, por sua vez, foi de uma elegância ímpar ao
receber o esdrúxulo e ofensivo Candango de "colagem
antropofágica" por "Tudo É Brasil": "Este prêmio é para o cinema
brasileiro, eterna fonte de inspiração".
O premiado mais aplaudido foi o ator José Dumont, de
"Kenoma", que dedicou o troféu à diretora Eliane Caffé e "aos
150 milhões de Lineus que vivem neste país, dentro de cada um
de nós", numa referência ao utópico e obstinado personagem que
encarna no filme.
Protesto e aclamação
Exibido "hors-concours" antes da premiação, o longa-metragem
"Ação Entre Amigos", de Beto Brant -recusado pela seleção do
festival-, acabou sendo o mais aplaudido de todo o evento.
Brant subiu ao palco para apresentar o filme e disse, entre sincero
e irônico: "O cinema brasileiro tem uma história muito importante.
Espero que vocês me deixem fazer parte dela".
Os realizadores de 16 mm subiram em peso ao palco para ler um
manifesto reivindicando que os filmes da categoria passem a ser
exibidos no Cine Brasília, e não na salinha do Teatro Nacional a
que estão confinados.
O tom de campanha política -presente em todas as sessões do
festival- também imperou durante o encerramento. Sempre que
podiam, apresentadores e premiados usavam a expressão
"honestamente", utilizada no slogan do governador do Distrito
Federal e candidato do PT à reeleição, Cristovam Buarque.
O ESTADÃO:
Terça-feira, 20 de outubro de 1998
Júri de Brasília causa indignação no fim do
festival
Premiação, anunciada no domingo à noite, foi
convencional e ignorou categorias importantes
LUIZ ZANIN ORICCHIO
Enviado Especial
BRASÍLIA - Deu confusão no fim. Não tanto
pelo escolha do vencedor desta 31ª edição do Festival
de Brasília do Cinema Brasileiro, o longa-metragem
Amor & Cia, de Helvécio Ratton, mas pela decisão do
júri em não atribuir troféus a três categorias até agora
consideradas fundamentais no mundo do cinema: roteiro,
fotografia e montagem. No júri popular ganhou Traição,
de Arthur Fontes, José Henrique Fonseca e Cláudio
Torres, que ainda leva a estatueta de direção, atribuída
apenas ao seu episódio, Diabólica. A atriz escolhida foi
Patrícia Pillar (Amor & Cia) e o ator, José Dumont
(Kenoma). O Viajante, de Paulo César Saraceni, ficou
com o consolo de um Prêmio Especial do Júri e com o
troféu de música (Túlio Mourão, Paulo Jobim e Sérgio
Saraceni). Direção de arte e cenografia foi dividido entre
Kenoma e Amor & Cia.
Nas outras categorias, o júri oficial - composto
pelo roteirista Jean-Claude Bernardet, pelos cineastas
Sérgio Silva, Luiz Carlos Lacerda e André Sturm, a
socióloga Aspásia Camargo, o ator Sérgio Mamberti e o
fotógrafo Rogério Duarte - resolveu que chegara mesmo
a hora de inovar. Deu um troféu de produção executiva a
Sara Silveira, uma espécie de compensação pelo fato de
que o filme por ela produzido, Ação entre Amigos, havia
sido injustamente excluído da mostra competitiva.
Atribuiu a Rogério Sganzerla e seu Tudo É Brasil, um
troféu de Colagem Antropofágica, categoria já
incorporada como contribuição pátria às novas
modalidades para julgar um filme.
Letreiros e destaques - Kenoma ganhou ainda
um troféu Candango por letreiros de abertura e
Francisco Cuoco e Ludmila Dayer foram agraciados
como destaques de interpretação, que um júri menos
criativo simplesmente chamaria de coadjuvantes.
Entre os curtas em 35 milímetros, venceu Amassa
que Elas Gostam, de Fernando Coster. O júri popular
preferiu o singelo Uma História de Futebol, de Paulo
Machline, que ainda recebeu o prêmio da Andi (Agência
de Notícias dos Direitos da Infância), que escolhe o filme
que faz a melhor reflexão sobre os problemas da infância
e da adolescência. Na bitola 16 milímetros, o grande
vencedor foi o gaúcho Gustavo Spolidoro, com seu filme
Velhinhas.
No fim da cerimônia de encerramento era grande
a indignação entre os cineastas. Além de criticar o
destempero do júri, acusavam-no de equívocos básicos,
tais como premiar a direção de apenas um dos episódios
de um longa, como é o caso de Traição, ignorar
completamente uma obra interessante como A Hora
Mágica, de Guilherme de Almeida Prado, desconhecer a
presença de diretores de fotografia como Jean Benoit
Crepon, Hugo Kovensky, José Tadeu Ribeiro e Mário
Carneiro, cuja categoria profissional, assim como a dos
montadores e roteiristas acabara de ser cassada. "'Não
sei como vou chegar ao Rio e explicar ao Mário
Carneiro que não houve prêmio de fotografia",
lamentava-se o cineasta Paulo César Saraceni.
Cobrança - Os poucos jurados que deram as
caras em público foram cobrados por suas decisões.
"'Fiz o que pude, mas eu era um só", desculpava-se o
fotógrafo Rogério Duarte, tido nos bastidores como
idealizador da categoria de colagem antropofágica, dado
a Rogério Sganzerla. Este, por sua vez, dizia para quem
quisesse ouvir que colagem era a mãe de quem tinha
criado o prêmio e que deveria jogar a estatueta na
cabeça de quem tivera a idéia. Sérgio Mamberti
declarou-se voz isolada e jurou que nunca mais na vida
participaria de outro júri. Enquanto isso, o diretor do
festival, Nílson Rodrigues, limitava-se a repetir que "a
polêmica é sempre positiva".
Saldo positivo - Pode ser. Mas a verdade é que
fatos desse tipo tiram o brilho de qualquer festa e esta
31ª edição do festival certamente mereceria um júri mais
equilibrado, para um usar um termo leve. Isso porque,
apesar de alguns erros de princípio, Brasília-98 teve boa
formatação. A comissão de seleção, a princípio, decidira
convidar apenas longas-metragens inéditos. Abriu uma
exceção para Kenoma, que acabou sendo um dos mais
premiados do certame. Mas não fez o mesmo para Ação
entre Amigos, de Beto Brant, que encerrou a mostra,
fora de concurso, como o mais aplaudido dos
longas-metragens que passaram este ano pelo Cine
Brasília. Brant leva do festival, a lembrança de uma
consagração popular com sabor de desforra.
No entanto, apesar dos percalços, a seleção de
longas foi equilibrada como havia muito não acontecia.
Contemplou praticamente todos os gêneros
(documentário, comédia, comédia ligeira, drama,
tragicomédia), mostrando a diversidade estilística e a
força do cinema brasileiro de autor. Quando a poeira
baixar, a mostra brasiliense de 1998 será recordada, por
exemplo, como aquela que trouxe de volta dois
veteranos como Rogério Sganzerla e Paulo César
Saraceni, ambos exibindo excelente forma
cinematográfica.
Com O Viajante, Saraceni encerra sua trilogia
sobre a obra de Lúcio Cardoso, iniciada com Porto das
Caixas e A Casa Assassinada. Em que pese alguns
excessos de retórica que poderiam ser discutidos, O
Viajante é um filme cheio de paixão, fruto de uma
dramaturgia madura e consistente. Pode, às vezes, ser
imperfeito como a própria vida, mas traz Marília Pêra no
papel de uma inesquecível Medéia perdida no interior de
Minas, cheia de desejo e culpa. Um mergulho dilacerado
na alma humana, que mereceria apreciação mais sensível
por parte desses privilegiados espectadores cuja função
é distribuir prêmios.
Narrativa competente - O vencedor deste
festival, Amor & Cia, é realizado com boa carpintaria
cênica. O diretor Helvécio Ratton não se cansa de
repetir que a ele interessa uma boa história, narrada de
maneira competente e interpretada por um bom elenco.
Não poderia haver melhor definição para o filme que fez.
Parte de uma trama saborosa tirada da novela de Eça de
Queirós, Alves & Cia, na qual o clássico triângulo
amoroso acontece entre os sócios de uma firma que
disputam o amor da bela Ludovina (Patrícia Pillar),
mulher de um deles. O sabor de província de Eça é
sabiamente recriado na madorrenta Minas Gerais do
século 19, o elenco (Patrícia e mais Marco Nanini e
Alexandre Borges) está afinado como um trio de
câmara, o texto é finamente costurado pela direção e
tudo funciona a contento, da música à fotografia.
Tomado isoladamente, Amor & Cia é um bom
filme, um excelente programa para o público. No
entanto, no contexto deste festival, aparece como a mais
retrógrada das opções do júri. Grosso modo, a seleção
deste ano se compunha de três filmes de invenção (Tudo
É Brasil, O Viajante e A Hora Mágica) e três de
narrativa mais convencional (Kenoma, Traição e Amor
& Cia). A premiação, destrambelhos à parte,
concentrou-se totalmente na alternativa tradicionalista
oferecida por essa amostragem, apesar de haver entre os
jurados gente, em tese, defensora de estéticas mais
radicais, agressivas e avançadas. O retrato oficial do
Festival de Brasília-98 fica, portanto, com a feição de
um constrangedor conservadorismo. O que ele
possivelmente teve de mais ousado e interessante deve
ser buscado em outra parte.
O ESTADO DE MINAS:
"Amor & Cia" vence Festival de Brasília e
reforça a tendência de aproximação com
o gosto do público
Marcello Castilho Avellar (20/10)
Vitória para os mineiros no
31º Festival de Brasília do
Cinema Brasileiro, encerrado
no último domingo com a
premiação de ‘‘Amor & Cia.’’,
de Helvécio Ratton. Além do
prêmio de melhor filme de
longa-metragem, o júri lhe
concedeu os de melhor atriz
(Patrícia Pillar) e melhor
direção de arte e cenografia
(Clóvis Bueno e Vera
Hamburger). Entre os filmes
de curta-metragem, ‘‘A Hora
Vagabunda’’, de Rafael
Conde, trouxe para casa o Candango de melhor ator (André
Brasil) e o prêmio da crítica.
Deu a louca no júri de premiação dos longas-metragens. Os sete
jurados levaram ao pé da letra a norma que tornava obrigatórias
apenas as estatuetas de melhor filme, diretor, atriz e ator,
dando total liberdade para a concessão de até oito outros troféus
em categorias diversas. O resultado foi a premiação de
elementos extremamente inexpressivos, como ‘‘produção
executiva’’ ou ‘‘letreiro de abertura’’. A questão não foi tão
catastrófica quanto boa parte do público imaginou – o prêmio de
‘‘Colagem antropofágica’’ dado a ‘‘Tudo é Brasil’’, por exemplo,
acaba remetendo à ótima montagem da película, e mais de um
jurado comentou, depois da premiação, que a idéia de ‘‘melhor
filme’’ traria implícitas as de melhor fotografia e roteiro. Só que
estas possibilidades não chegaram ao ouvido dos concorrentes,
e muito menos aos espectadores, de modo que a premiação
ficou parecendo algo ainda mais disparatado e sem critério do
que era.
A vitória de ‘‘Amor & Cia.’’, seguindo-se à de ‘‘Anahy de las
Misiones’’ em 1997, confirma um vínculo entre Brasília e a
vertente do cinema brasileiro que constrói obras com linguagens
mais próximas daquela que o grande público conhece. Cada um
dos dois, a sua maneira (‘‘Amor’’ é uma comédia, ‘‘Anahy’’ um
drama), tem narrativa linear, grande cuidado com a produção
(principalmente em relação à reconstituição de época e
fotografia), confia na interpretação do elenco como estratégia
fundamental para a conquista do mercado. Isso tudo sem
abandonar a idéia de contar histórias que não seriam narradas
pelas cinematografias dominantes do mundo – americana,
francesa, inglesa, alemã. Sintomaticamente, os dois filmes
foram obras de diretores fora do eixo Rio-São Paulo, que
tradicionalmente dominam o cinema brasileiro.
Mesmo assim, o júri afirmou o compromisso do festival com as
linhas mais autorais do cinema brasileiro. Novamente, podemos
usar a versão 1997 como referência: ‘‘Anahy’’ venceu o melhor
filme, ‘‘Miramar’’, de Júlio Bressane, o melhor diretor. Este ano, o
compromisso manifestou-se no prêmio especial dado a Paulo
Cézar Saraceni – desproporcional à péssima qualidade do filme,
mas uma homenagem à participação do cineasta na luta pelo
Cinema Novo, e na quantidade de citações a Rogério Sganzerla
ao longo de toda a semana. O ex-rebelde Sganzerla, aliás,
praticamente deu mostras de que a antiga rivalidade entre o
‘‘cinema independente’’ que faz e o Cinema Novo acabou: teceu
loas à produção de Glauber, Nelson Pereira dos Santos e
companhia. Da mesma maneira, pode-se perceber o
compromisso com um cinema mais autoral nas homenagens a
Joaquim Pedro de Andrade e Nelson Pereira dos Santos.
Outro traço do ‘‘novíssimo cinema brasileiro’’ que ficou nítido em
Brasília foi a qualidade do acabamento das películas,
principalmente em relação a direção de arte e, num nível um
centímetro inferior, fotografia e som. Filmes que contam histórias
para o grande público ou obras autorais, com resultados
melhores ou piores, todos parecem perceber que o mercado
solicita que os produtos cinematográficos sejam bem acabados.
JORNAL DO BRASIL:
Terça-feira, 20 de outubro de 1998
Amor & Cia é o
mais premiado no
festival de Brasília
O filme de Helvécio Ratton recebeu três
Candangos numa cerimônia confusa e tumultuada
pela decisão do júri de premiar novas categorias
PEDRO BUTCHER*
Foto de Divulgação
BRASÍLIA - A sutileza,
sensibilidade e graça singela de
Amor & Cia, de Helvécio
Ratton, saíram vencedoras do
31° Festival de Cinema de
Brasília, encerrado domingo à
noite em cerimônia - para variar
- tumultuada, mas pelo menos
ágil e relativamente curta
(durou menos de duas horas,
recorde para o padrão dos
festivais brasileiros). A
simpática comédia burlesca de
Ratton, que transpõe uma
história do português Eça de
Queiroz para a mineira São João
del Rey, recebeu os Candangos de melhor filme, atriz (Patrícia Pillar) e direção de arte. O longa
em episódios Traição, de Arthur Fontes, Claudio Torres e José Henrique Fonseca, terminou
sendo o segundo vencedor da noite, acumulando os troféus de Destaque de interpretação
(para Francisco Cuoco e Ludmila Dayer), direção (para Claudio Torres) e melhor filme pelo júri
popular. José Dumont, muito merecidamente, foi escolhido o melhor ator por sua interpretação
em Kenoma, de Eliane Caffé.
Curiosamente, júri, público e crítica discordaram na eleição de seus filmes prediletos. O oficial,
que tinha entre seus integrantes os cineastas Luiz Carlos Lacerda (de For all) e Sérgio Silva
(de Anahy de las missiones), o pesquisador Jean Claude Bernardet e a antropóloga Aspásia
Camargo, entre outros, preferiu a narrativa sem grandes ousadias autorais de Ratton, diretor
de A dança dos bonecos e Menino Maluquinho - O filme. Já o público predominantemente
jovem que freqüentou o Cine Brasília durante a semana confirmou seus aplausos para
Traição, três histórias de Nelson Rodrigues tratadas de forma bastante diferente por seus
diretores. E a crítica preferiu dividir seu prêmio entre os novos trabalhos dos veteranos
Rogério Sganzerla (Tudo é Brasil, sobre a passagem de Orson Welles pelo país em 1942) e
Paulo Cezar Saraceni (O viajante, uma adaptação de Lúcio Cardoso).
Tal divisão só foi possível por causa da homogeneidade da seleção, formada por títulos
interessantes mas nunca apaixonantes (com exceção de O viajante, que dividiu radicalmente
os espectadores). A conseqüência foi um resultado imprevisível até o último instante. Além
do prêmio da crítica, o filme de Saraceni levou o Prêmio Especial do Júri ("por sua
interpretação dos valores culturais brasileiros") e de melhor música (na belíssima trilha há uma
canção inédita de Tom Jobim).
Mesmo com essa noite de surpresas garantidas, o júri resolveu inventar moda e não conferiu
alguns prêmios importantes como os de fotografia, montagem e roteiro. Querendo ser
"criativo", preferiu conceder novas categorias como "melhor produção executiva" (que foi
para o dínamo do cinema paulista Sara Silveira, produtora de A hora mágica), "letreiros de
abertura" (os do filme Kenoma) ou ainda um enigmático "colagem antropofágica" (para Tudo
é Brasil). Mas isso só provocou uma enorme confusão, além de abalar a credibilidade do
festival. Assim que a cerimônia terminou, correu um forte boato de que os prêmios excluídos
teriam sido votados pelo júri e os apresentadores teriam simplesmente esquecido de
anunciá-los. A direção do festival negou, mas a dúvida permaneceu por muito tempo, até ser
definitivamente esclarecida. Nesse ponto o júri não só soou um tanto ridículo como também
deixou de premiar a fotografia magistral de Mário Carneiro para O viajante (único ponto de
unanimidade do filme) ou a montagem elaboradíssima de Tudo é Brasil (que virou a tal
"colagem antropofágica", talvez?). Outra decisão que provocou constrangimento foi a de
premiar apenas Claudio Torres, como melhor diretor, pelo filme Traição. Ele é, de fato,
responsável pelo melhor episódio, Diabólica. Mas é claro que arrastou Arthur Fontes (diretor
do primeiro episódio) para o palco e disse que aceitava o prêmio em nome dos três cineastas
que assinam o filme. "Já que não consigo ver Traição separadamente", justificou.
A premiação do júri, em geral, foi conservadora. Deixou-se de fora, por exemplo, a
interpretação de Marília Pêra em O viajante (para alguns, um trabalho mal compreendido
apenas por ser anti-naturalista) ou até mesmo a sofisticada direção de arte de A hora mágica,
elemento fundamental na teia de citações e recursos metalinguísticos do filme referencial de
Guilherme de Almeida Prado. Mas o prêmio principal encontra fundamento na sofisticação
cinematográfica quase invisível do filme de Ratton, que sabe extrair, sobretudo, grandes
momentos da interpretação de seus atores (Marco Nanini, sempre à beira do patético, e
Patrícia Pillar, que transforma sua Ludovina numa espécie de Capitu).
Na premiação de curtas, o júri também deu preferência a uma comédia inteligente, escolhendo
a hilária mistura de animação e live action Amassa que elas gostam, de Fernando Coster. Os
curtas, aliás, começaram a competição sem prometer muito, mas subiram consideravelmente de
nível nos últimos dias do festival, principalmente com a projeção de A hora vagabunda, de
Rafael Conde, Kyrie ou O início do caos, de Débora Waldman, e Náufrago, de Amilcar Claro -
três filmes de se tirar o chapéu revelando cineastas muito interessantes. Na categoria 16
milímetros - que trouxe ao festival uma animada e unida turma de jovens cineastas de todo o
Brasil -, o grande vencedor foi Velinhas, de Gustavo Spolidoro, que já tinha impressionado em
Gramado. O cineasta elaborou seu filme num único plano, sem cortes, filmado quase que
inteiramente à luz de velas. Tetê Moraes, com sua divertida comédia niteroiense Era
Araribóia um astronauta, sobre a crença em extra-terrestres, ganhou uma Menção Honrosa
do júri.
A sessão de encerramento do Festival de Brasília contou ainda com a projeção de Ação entre
amigos, de Beto Brant, que já foi exibido no Festival de Veneza e, em setembro, abriu a
MostraRio. O público brasiliense (para quem o filme permanecia inédito) aplaudiu de pé ao fim
da projeção. O secretário de cultura do Distrito Federal Hamilton Pereira, que subiu ao palco
para entregar um dos prêmios, deu um depoimento emocionado. "Ainda estou sob o impacto
desse filme, que conta uma história que poderia ter sido a minha", afirmou.
* O repórter viajou a convite da organização do festival
DIÁRIO DE SOROCABA:
20 De Outubro de 1998
CINEMA
'Amor & Cia' vence Festival de Brasília
mas evento terminou em confusão
BRASÍLIA - Deu confusão no fim. Não tanto pelo escolha do vencedor desta 31.ª edição
do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o longa-metragem "Amor & Cia", de Helvécio
Ratton, mas pela decisão do júri em não atribuir troféus a três categorias até agora
consideradas fundamentais no mundo do cinema: roteiro, fotografia e montagem.
No júri popular ganhou "Traição", de Arthur Fontes, José Henrique Fonseca e Cláudio
Torres, que ainda leva a estatueta de direção, atribuída apenas ao seu episódio, "Diabólica".
A atriz escolhida foi Patrícia Pillar (Amor & Cia) e o ator, José Dumont (Kenoma).
"O Viajante", de Paulo César Saraceni, ficou com o consolo de um Prêmio Especial do Júri e
com o troféu de música (Túlio Mourão, Paulo Jobim e Sérgio Saraceni). Direção de arte e
cenografia foi dividido entre "Kenoma" e "Amor & Cia".
Nas outras categorias, o júri oficial - composto pelo roteirista Jean-Claude Bernardet, pelos
cineastas Sérgio Silva, Luiz Carlos Lacerda e André Sturm, a socióloga Aspásia Camargo, o
ator Sérgio Mamberti e o fotógrafo Rogério Duarte - resolveu que chegara mesmo a hora de
inovar.
Deu um troféu de produção executiva a Sara Silveira, uma espécie de compensação pelo fato
de que o filme por ela produzido, "Ação entre Amigos", havia sido injustamente excluído da
mostra competitiva.
Atribuiu a Rogério Sganzerla e seu "Tudo É Brasil", um troféu de Colagem Antropofágica,
categoria já incorporada como contribuição pátria às novas modalidades para julgar um filme.
LETREIROS E DESTAQUES - "Kenoma" ganhou ainda um troféu Candango por letreiros
de abertura e Francisco Cuoco e Ludmila Dayer foram agraciados como destaques de
interpretação, que um júri menos criativo simplesmente chamaria de coadjuvantes.
Entre os curtas em 35 milímetros, venceu "Amassa que Elas Gostam", de Fernando Coster. O
júri popular preferiu o singelo "Uma História de Futebol", de Paulo Machline, que ainda
recebeu o prêmio da Andi (Agência de Notícias dos Direitos da Infância), que escolhe o filme
que faz a melhor reflexão sobre os problemas da infância e da adolescência.
Na bitola 16 milímetros, o grande vencedor foi o gaúcho Gustavo Spolidoro, com seu filme
"Velhinhas". No fim da cerimônia de encerramento era grande a indignação entre os cineastas.
Além de criticar o destempero do júri, acusavam-no de equívocos básicos, tais como premiar
a direção de apenas um dos episódios de um longa, como é o caso de "Traição", ignorar
completamente uma obra interessante como "A Hora Mágica", de Guilherme de Almeida
Prado, desconhecer a presença de diretores de fotografia como Jean Benoit Crepon, Hugo
Kovensky, José Tadeu Ribeiro e Mário Carneiro, cuja categoria profissional, assim como a
dos montadores e roteiristas acabara de ser cassada.
"Não sei como vou chegar ao Rio e explicar ao Mário Carneiro que não houve prêmio de
fotografia", lamentava-se o cineasta Paulo César Saraceni.
COBRANÇA - Os poucos jurados que deram as caras em público foram cobrados por suas
decisões. "Fiz o que pude, mas eu era um só", desculpava-se o fotógrafo Rogério Duarte, tido
nos bastidores como idealizador da categoria de colagem antropofágica, dado a Rogério
Sganzerla.
Este, por sua vez, dizia para quem quisesse ouvir que colagem era a mãe de quem tinha
criado o prêmio e que deveria jogar a estatueta na cabeça de quem tivera a idéia. Sérgio
Mamberti declarou-se voz isolada e jurou que nunca mais na vida participaria de outro júri.
Enquanto isso, o diretor do festival, Nílson Rodrigues, limitava-se a repetir que "a polêmica é
sempre positiva".
SALDO POSITIVO - Pode ser. Mas a verdade é que fatos desse tipo tiram o brilho de
qualquer festa e esta 31.ª edição do festival certamente mereceria um júri mais equilibrado,
para um usar um termo leve. Isso porque, apesar de alguns erros de princípio, Brasília-98
teve boa formatação. A comissão de seleção, a princípio, decidira convidar apenas
longas-metragens inéditos.
Abriu uma exceção para "Kenoma", que acabou sendo um dos mais premiados do certame.
Mas não fez o mesmo para "Ação entre Amigos", de Beto Brant, que encerrou a mostra, fora
de concurso, como o mais aplaudido dos longas-metragens que passaram este ano pelo Cine
Brasília. Brant leva do festival, a lembrança de uma consagração popular com sabor de
desforra.
No entanto, apesar dos percalços, a seleção de longas foi equilibrada como havia muito não
acontecia. Contemplou praticamente todos os gêneros (documentário, comédia, comédia
ligeira, drama, tragicomédia), mostrando a diversidade estilística e a força do cinema brasileiro
de autor.
Quando a poeira baixar, a mostra brasiliense de 1998 será recordada, por exemplo, como
aquela que trouxe de volta dois veteranos como Rogério Sganzerla e Paulo César Saraceni,
ambos exibindo excelente forma cinematográfica.
Com "O Viajante", Saraceni encerra sua trilogia sobre a obra de Lúcio Cardoso, iniciada com
"Porto das Caixas" e "A Casa Assassinada". Em que pese alguns excessos de retórica que
poderiam ser discutidos, "O Viajante" é um filme cheio de paixão, fruto de uma dramaturgia
madura e consistente.
Pode, às vezes, ser imperfeito como a própria vida, mas traz Marília Pêra no papel de uma
inesquecível Medéia perdida no interior de Minas, cheia de desejo e culpa. Um mergulho
dilacerado na alma humana, que mereceria apreciação mais sensível por parte desses
privilegiados espectadores cuja função é distribuir prêmios.
NARRATIVA COMPETENTE - O vencedor deste festival, "Amor & Cia", é realizado
com boa carpintaria cênica. O diretor Helvécio Ratton não se cansa de repetir que a ele
interessa uma boa história, narrada de maneira competente e interpretada por um bom elenco.
Não poderia haver melhor definição para o filme que fez.
Parte de uma trama saborosa tirada da novela de Eça de Queirós, Alves & Cia, na qual o
clássico triângulo amoroso acontece entre os sócios de uma firma que disputam o amor da
bela Ludovina (Patrícia Pillar), mulher de um deles. O sabor de província de Eça é sabiamente
recriado na madorrenta Minas Gerais do século 19, o elenco (Patrícia e mais Marco Nanini e
Alexandre Borges) está afinado como um trio de câmara, o texto é finamente costurado pela
direção e tudo funciona a contento, da música à fotografia.
Tomado isoladamente, "Amor & Cia" é um bom filme, um excelente programa para o público.
No entanto, no contexto deste festival, aparece como a mais retrógrada das opções do júri.
Grosso modo, a seleção deste ano se compunha de três filmes de invenção (Tudo É Brasil, O
Viajante e A Hora Mágica) e três de narrativa mais convencional (Kenoma, Traição e Amor
& Cia).
A premiação, destrambelhos à parte, concentrou-se totalmente na alternativa tradicionalista
oferecida por essa amostragem, apesar de haver entre os jurados gente, em tese, defensora
de estéticas mais radicais, agressivas e avançadas. O retrato oficial do Festival de Brasília-98
fica, portanto, com a feição de um constrangedor conservadorismo. O que ele possivelmente
teve de mais ousado e interessante deve ser buscado em outra parte.
O GLOBO:
20 de Outubro de 1998
Deu a louca no Candango
Eduardo Souza Lima
BRASÍLIA
júri oficial do 31º Festival de Brasília enlouqueceu. O evento,
que terminou na noite de domingo, tinha tudo para entrar para a
história como a grande festa da recuperação do cinema
nacional. Todos os filmes da competição tinham qualidades
inegáveis e refletiam a pluralidade da nova safra. Mas o júri (os
cineastas Sérgio Silva, Luís Carlos Lacerda e Tânia Savietto, a
socióloga Aspásia Camargo, o ator Sérgio Mamberti, o artista
gráfico Rogério Duarte e o roteirista Jean-Claude Bernardet) pôs
tudo a perder, deixando de premiar categorias tradicionais
como fotografia, montagem e roteiro, para inventar os
esdrúxulos Candangos de melhor colagem antropofágica e de
melhor letreiro de abertura. Os grandes vencedores foram
"Amor & cia", de Helvécio Ratton, melhor filme do júri oficial, e
"Traição", de Arthur Fontes, Cláudio Torres e José Henrique
Fonseca, prêmio do júri popular. E Brasília também repetiu
erros de outros festivais brasileiros deste ano.
Festival para quê?
Luiz Noronha
Farta distribuição de prêmios, escolhas duvidosas, equívocos
entre o risível e o constrangedor. O que se viu em Brasília foi
um remake de cenas mostradas em festivais e jornadas de
cinema por todo o Brasil. Diretores sérios são expostos ao
ridículo e nivelados a meros aprendizes. Afinal, o que está
havendo?
Os grandes festivais de cinema têm badalação, discussão
estética, polêmicas, etc, mas isso é perfumaria. O que justifica
esses eventos é a possibilidade de neles serem fechados
negócios. É o mercado que sustenta Cannes, Berlim,
Sundance etc. Aqui, infelizmente, festivais de cinema são
meros eventos promocionais de políticos locais, com suas
respectivas secretarias de Cultura fazendo papel de aparelhos
de propaganda, promovendo debates inócuos e premiações
patéticas. Enquanto nosso mercado audiovisual for imaturo, o
besteirol é tudo que teremos.
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MEU COMENTÁRIO FINAL:
Esta repercussão negativa do "mercado audiovisual", como captada
acima pelo repórter de O GLOBO era tudo de que não precisávamos.
A quem interessa promover uma confusão destas? Pensem.
Grande Abraço,
Marcos Manhães Marins
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