Diário de Brasília, 15 de Outubro de 1998
CARTA DE BRASILIA
SEMINÁRIO CINEMA BRASILEIRO HOJE
CURTAS EM 35MM DE HOJE
LONGA EM COMPETIÇÃO - A HORA MÁGICA
Hoje, está rolando o dia inteiro o seminário
CINEMA BRASILEIRO HOJE
com o objetivo de produzir um documento essencialmente político
exigindo das autoridades
1) Uma POLÍTICA NACIONAL ESPECÍFICA PARA O CINEMA, que tenha
linha-mestra definidas em parceria com o Governo e que possa
ser conduzida pelas associações e sindicatos da área de
Cinema com a parceria e o apoio do Governo Federal;
2) Que o Governo já parta das propostas concretas e pontuais
apresentadas no documento oficial, e as demais, apresentadas
e discutidas durante o Seminário.
O representante da SDAv/MinC, Sérgio Assunção faltou para sua
intervenção na parte da manhã, mas na parte da tarde o Ministério
da Cultura estava bem representado pelo Secretário Moacir de
Oliveira e pelo Ministro Francisco Weffort.
Ao final foi elaborado o documento que foi batizado como
CARTA DE BRASÍLIA
CURTAS:
UMA HISTÓRIA DE FUTEBOL, de Paulo Machline

Muito bem construída história de um menino que observa
com paixão a trajetória de um outro menino que se tornará
um jogador de futebol de reconhecimento internacional,
Pelé. Para quem ainda não assistiu, somente no final, se
dá conta de que a saga do menino que falta aula para jogar
bola tem a intenção de contar o início da carreira de Pelé.
O roteiro e a direção conseguem a proeza de não tornarem
entediante a citação de nomes de personagens, um após outro,
numa narrativa dinâmica, que vai nos acostumando a tentar
guardar os nomes, para quando surgirem os nomes realmente
importantes de se guardar, a nossa atenção já esteja afiada.
A HORA VAGABUNDA, de Rafael Conde.
Um besteirol, que só vale como peça de distração sem
qualquer objetivo. No final, há o depoimento de um favelado,
somente a voz, sobre as cenas da cidade, recomendando que
não se cheire crack, etc. etc. que é a parte melhor do filme.
No mais a estória de três jovens que resolvem sair de Belo
Horizonte e ir para o Rio de Janeiro fazer cinema é vaga,
alías, como sugere o título.
A HORA MÁGICA, de Guilherme de Almeida Prado.
Guilherme faz um filme cuidadosíssimo, observador nos mínimos
detalhes da transição de uma época onde o que era mais
importante era o som, para outra onde o mais importante é a
luz, a imagem. A transição da era do rádio para a era da Tv.
Cada cena do filme é primorosa, e traz revelações (para quem
não vivenciou uma dublagem) e recordações de uma época que
não voltará jamais. Traz de volta a sua personagem Lyla Van,
atriz, e outros elementos presentes em A Dama do Cine Shanghai,
como o chaveirinho com o símbolo yin/yang, o néon, etc.
Para quem acompanha a obra de Guilherme é uma experiência
inigualável. Mas para um público não iniciado na sua obra e
na técnica de sonorização, o filme não oferece uma boa
situação dramática central. O dublador (Raul Gazola) tenta
impedir que dois mal encarados matem sua admiradora (que
se torna sua amante) e depois de uma surra, propõe-se a
resgatar os brincos que os homens querem dela, e que pertenciam
a um vizinho do dublador, que fora assassinado com um tiro
na boca. Aliás, várias notícias sobre pessoas morrendo com
um tiro na boca, montam um mosaico simbolizando o assassinato
do som, da voz. É um filme para reflexão sobre a baixa
importância que hoje se dá para os sons, os ruídos, as vozes.
Marcos Manhães Marins
PROJETO CINEMA BRASIL NA INTERNET
CARTA DE BRASÍLIA
Os participantes do Seminário Cinema Brasileiro Hoje, reunidos
durante o 31° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro,
fizeram uma avaliação da situação e das perspectivas da
atividade audiovisual no país.
Como constatação preliminar verificou-se a existência de um
monopólio hegemônico, que condiciona a situação de todos os
cinemas nacionais, exercido pela cinematografia norte
americana, estabelecida há 80 anos , através de canais de
distribuição, espalhados ao redor
do mundo inteiro.
No Brasil, essa situação é agravada pelo fato de 70% do
mercado audiovisual ser concentrado na televisão, aberta e
fechada, que veicula preferencialmente sua própria
produção, e a produção importada.
Nesse quadro, a existência da Lei do Audiovisual possibilitou,
nos últimos quatro anos, a retomada da produção que se
encontrava paralisada. O empenho do Ministério da Cultura,
na divulgação e implementação dos mecanismos nela estabelecidos,
tem uma importância histórica. Houve um aumento significativo
dos recursos destinados à atividade cinematográfica, que
permitiu a produção de quase 90 filmes nesse período.
No entanto, fica claro que a Lei do Audiovisual não esgota a
responsabilidade do Estado na produção cinematográfica, pois
transfere para a iniciativa privada a decisão sobre que
filmes serão produzidos, permitindo o dirigismo na seleção
temática dos projetos. A produção de características
essencialmente cultural não é forçosamente contemplada pelos
interesses institucionais, comerciais ou mercadológicos das
empresas. Essa produção é fundamental para o desenvolvimento
cultural e social da atividade e é atribuição inalienável
do Estado. De outro lado a disponibilidade sazonal dos
recursos incentivados, concentrados num único mês do ano,
impede que a atividade ocorra de maneira sistemática e regular.
Criada como um mecanismo emergencial de retomada da produção,
a Lei do Audiovisual não substitui uma política pública para
a atividade cinematográfica.
Apesar da diversidade e da qualidade dessa produção, como
atestam o reconhecimento da crítica e os diversos prêmios
recebidos nos principais festivais ao redor do mundo, o
resultado alcançado por esses filmes no mercado tem ficado
muito aquém de sua real possibilidade, inviabilizando a meta
de conseguirmos uma indústria cinematográfica auto-suficiente.
Com a ausência do cinema brasileiro do mercado por vários
anos, deixaram de existir estruturas de distribuição adequadas
para esses filmes, assim como o hábito do público em
consumi-los. Essa situação de ausência acentuou ainda mais a
concentração e o caráter monopolista do mercado. Circuito
exibidor comprometido com os lançamentos estrangeiros, preços
de mídia acima das possibilidades do setor, remuneração
irrisória no mercado de vídeo domestico e ausência dos
produtos na televisão aberta, entre outros, determinam a
baixa rentabilidade do filme brasileiro, em seu próprio
território.
A importação indiscriminada de um grande número de títulos,
de resultado econômico irrelevante, apenas para ocupação das
salas, apenas para a manutenção da hegemonia no mercado,
agrava ainda mais esse quadro.
É impossível reverter essa situação, sem que o Estado assuma
sua função de agente regulador da atividade econômica, em
especial como arbitro da concorrência e inimigo do monopólio
privado. O parque industrial nacional somente se estabeleceu
no país, com decisivo apoio e defesa por parte do Estado.
A complementaridade entre a iniciativa privada e a ação do
governo é indispensável.
Para exercer essa ação reguladora, impõe-se ao governo uma
atuação integrada de variadas instâncias ministeriais, bem
como sua coordenação. O sucesso dessa ação é inseparável da
existência de um canal concreto e sistemático entre os
agentes da atividade e o Estado, criando sintonia e
responsabilidades recíprocas.
Vivemos um momento decisivo. Se medidas urgentes, presentes
nas várias propostas apresentadas durante esse Seminário,
e registradas em suas publicações, não forem tomadas, todo
esse esforço dos últimos quatro anos corre o risco de ser
desperdiçado. O significativo volume de recursos investidos
pelo governo não encontra retorno, tornando-se improdutivo e
inviabilizando a desejada autonomia da atividade. Por fim, a
manutenção do quadro presente, impedindo a adequada
visibilidade dos filmes, não permite que o esforço
simultâneo do governo e da atividade cumpra sua função
social, razão primeira de sua existência.
Documento dos cineastas brasileiros entregue ao Ministro da
Cultura, Francisco Weffort, em Brasília, no dia 15 de
outubro de 1998, durante o Festival de Brasília do Cinema
Brasileiro.
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o grande homenageado do FESTIVAL DE BRASÍLIA 98, pelos seus 70 anos de vida
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